sábado, 16 de outubro de 2010

Poema nº 35




O Porto Seco
(do jeito de guimarães rosa)

O porto seco, de sem-mar, do de sal depositado,
do além mais do sol, de não alcançar, e descer até;
e de rio, remanso vindo, vindo, vindo, nenhum chegando, desanunciado.
Escuto não, pois? Porto seco, de aonde?
De vai, de vem, de tudo maquinado no quente.
Longe de muito, o viajar começado - aonde o trajeto? - de lá, mesmo, e mesmo que rio que é, sendo, serpenteado, do dessa figura do não-chegar.
De rios, eu, nós, não conjugamos entendimentos, e ciência não, se tanto nunca sabemos,
nunca é, e, quando olhos-mesmo-de-ver, possível fosse,
águas de barrenta prenhez: não sei, é, hão-de, do jeito de depois, eu, nós, não-sendo foi.
Quanto nem fosse que tantos os entrementes, de assim, e apois, e, passar de árvores,
renhida a luta galhosa,de vegetais torcidosos, de doloridos uivos, raiz-de-onde,
vindo, de ter chegado, faisqueira de bem de antes: aonde, não sei, se?
Porto do seco, inseguro-não, do tremendo: volteada a costa, do jeito indo, é não,
sendo cais-de-chegar, não fundeia de ausente muito, de não vindo,
de saído ancorado no lugar de lá, dos antes, do tudo,
do porto onde exatos são os afundamentos, os de não chegares, de ver-não, de-nunca-foi.
Há o porto, do vir de onde, do depois de, do de ventos marujados.
Há de ser, fosse do que vem, do é que vinha, anunciada é a voz: porto seco, de águas-não.
Aonde, não sei, se?
(Antonina, dezembro/2001)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Colagens e Resíduos








"Já te vejo brincando, gostando de ser
tua sombra a se multiplicar..."
(Chico Buarque de Holanda).

"Ah, abre os vidros de loção e abafa
o insuportável mau cheiro da memória."
(Carlos Drummond de Andrade).

Na mão, a sacola de compras pesa. Sente os pés em fogo, o sapato parece ficar cada vez menor. Olha distraída a vitrina e os vestidos paralizados num movimento de valsa. O reflexo de sua imagem revela o corpo seco e os traços angulosos do rosto cansado. Do outro lado da rua, o som de uma loja de discos atravessa a sua barreira de indiferença, como um sopro de memórias: é uma música dele na voz de uma cantora que não conhece. A versão traz de volta um momento de juventude, quando tudo era novo e havia uma explicação para a insensatez de sua paixão: seus quinze anos.
Vinte e tantos anos depois e a música ainda lhe provoca as mesmas sensações - "Morena dos olhos d'água, tira os teus olhos do mar..." - e então a lembrança da cor dos olhos dele, dos cabelos encaracolados e do sorriso - Ah, a boca - lhe causa um aperto no ventre. Quando se livraria da obsessão? Entra na loja, na esperança de achar um disco onde a voz estivesse aprisionada numa nova canção, que pudesse soltar pela casa, que vazasse as janelas, chegasse até os vizinhos, ganhasse a estrada que a conduziria de volta ao passado.
Vã esperança. Ele não grava há pelo menos dois anos. Sai da loja e a realidade do sábado a invade, o relógio da XV anunciando o horário de almoço. O vento gelado doi na pele. O relógio, novamente piscando, marca a temperatura. O azul do céu espalha festa pela avenida apinhada de gente. A música continua a tocar na sua cabeça, fundo. Anda , empurrada pela multidão, os pés doendo, a sacola pesando, mas feliz e entregue às lembranças...
.

Alegria, alegria

Minha amiga Luíza está lá na cozinha, escondendo atrás da porta o estandarte. Seu olho está começando a ficar roxo, mas ela ri, vitoriosa. “Eu bem que disse”- falo, procurando gelo e embrulhando-o no pano de prato. Ela recusa o gelo e tagarela sobre a passeata e o ar se enche da sua voz. Desisto de aplicar-lhe o gelo e o mastigo, deixando que um pedacinho escorra pelo canto dos lábios e desça pelo meu decote, se enfie no sutiã e o molhe, provocando-me um arrepio na pele. A sensação do gelo permanece. Gosto tanto de Luíza que me deixei convencer a ir à passeata. Minha mãe está nos maldizendo lá na sala, mas papai me olhou orgulhoso por trás do jornal. Eu ligo o rádio da cozinha à procura de notícias e juntamos nossas cabeças, felizes. Passa uma música, um "jingle" da Mesbla, “compre obrigações reajustáveis do Tesouro Nacional”- o noticiário da Tupi diz que um estudante - Edson Luís - morreu no Rio durante a passeata. Volto e sintonizo. Agora estamos sérias, minha mãe está ainda mais séria na porta da cozinha e meu pai fechou o jornal. Foi assim que deixei de ser criança.

... e o pensamento volta no tempo como o túnel do seriado de TV, e, em algum canto da mente, há um porão atulhado de sombras, lembranças evitadas que teimam em continuar vivas.
O Casamento I

Novembro. Alguém na rua Direita assovia "A Banda". O país vive dias agitados, mas no meu coração, tão jovem quanto eu, alimento a esperança de que algo aconteça e mude o rumo de minha vida. Na bolsa, carrego o salário, já destinado à compra de um vestido de noiva, umas peças do enxoval e quem sabe um sorvete. Na bolsa também levo uma carta, pois é natural que aos dezenove anos escreva uma carta de amor. Mesmo que seja para o ídolo do momento. Estou apaixonada e finalmente enchi-me de coragem para lhe escrever. No momento, meu noivo é apenas um ser abstrato. A perspectiva de casar parece remota, enquanto olho vitrinas à procura de um conjunto para a cerimônia civil, barato, mas que dê a impressão de elegância. As duas mulheres que trago dentro de mim têm pouca semelhança: uma se prepara para o casamento como se o destino já tivesse decidido assim, a outra sonha com o rapaz tímido, que faz músicas para outras mulheres, que vão para o mar ou que se penteiam enquanto ele morre de paixão sob a janela, felizardas indiferentes, enquanto eu amargo a frustração de saber que nunca vou pôr a carta no correio.

Entra numa loja para fugir do frio e da multidão. É um antiquário atulhado de coisas que não combinam com sua casa branca, cheia de metais e vidros. Todos os objetos foram escolhidos por ele e, agora que se foi, uma vontade louca de mudar tudo se agita dentro dela.

O Casamento II

Tento escapar dos teu olhos, porque me conheces tão bem e às vezes tenho a impressão de que invades o meu cérebro e te apossas do meu pensamento. Sinto pesadas as cadeias que me prendem a todas as obrigações de trabalho, do lar, da vida. Minha alma sonha vôos, sinto-me, às vezes, capaz de tudo, não fossem essas cadeias. Há em frente dos meus olhos tanta estrada, e eu já estou indo, devagar, e, enquanto isso, tento disfarçar minha partida com os olhos fitando o nada; solta minhas mãos, deixa que eu vá ... não fossem tantas e tão pesadas as cadeias...

“Não posso esquecer a flanela dos pijamas dos gêmeos.” Tem uma lista na bolsa e o orçamento apertado não vai lhe dar muitas chances de escolha. O cheque especial foi reduzido pelo banco. Olha os objetos expostos, com preços proibitivos.
O casamento III

É Billie Holliday que gira no prato da vitrola. É bem o estilo dele, decorando a letra para impressionar Luíza. Estou enjoada e acho que é gravidez novamente, o que me deixa à mercê de seus caprichos. Ninguém, em sã consciência, vai embora de casa com o segundo filho na barriga - vai dizer minha mãe. O enjôo aumenta, o som da vitrola roda na minha cabeça e tenho vontade de matá-lo, mas me deixo ficar aqui, ancorada.

A loja tem coisas lindas. Um conjunto formado por licoreira e copinhos de cristal rosa lembram a casa das tias solteiras, com paninhos de crochê, o piso de tábuas largas enceradas, sem um risco. Protegido por uma vitrina, um xale lhe enche os olhos de lágrimas, que tenta disfarçar, enquanto sai correndo da loja, causando espanto aos clientes e à mulher atrás do balcão.

O Baile

Todos os rapazes vão de terno. Não há como escapar desse salto alto e o vestido me deixa feito um bolo de noiva, mas o rosto afogueado trai a emoção. Ou será o champanhe que papai havia guardado para hoje e que me deixou tonta no segundo gole? Não esqueça de: 1) Descer as escadas equilibrando-se nos saltos (você treinou isso o mês inteiro). 2) Virar devagar para não entortar o pé. 3) Nada de chorar, pois o rímel escorre. O barulho do salto na madeira dos degraus, enquanto lá embaixo minha mãe espera com a bolsa branca e o xale espanhol (ela vai deixar-me usar a sua preciosidade!) Ele é uma teia fina de seda, de todas as cores, como raio de sol sobre prisma de cristal. Um último degrau, o xale sobre os ombros nús, meus cabelos duros de laquê, e ele me esperando ao pé da escada, como um filme da Sandra Dee. Partimos rumo a Ray Coniff, Beatles e Cuba Libre.

Para na porta do Cine Ritz para ver os cartazes. Antonio Banderas lembra Pierre. “Hoje é o dia internacional das lembranças ou será que vou morrer?”- pensa, sorrindo.

O amante

Um amante latino, era o que ele era. Tinha até um boné francês, que usava meio de lado. Eu o chamava Pierre, embora ele tivesse um nome sírio. Chamando-o Pierre, eu achava estar valorizando nosso amor suburbano e lhe escrevia versos. Desejava-o, embora (e talvez só por isso) o achasse um cafajeste. Sua beleza latina pedia um bigode, mas ele tinha uma vasta barba negra e sua pele era morena de sol. Sonhei casar-me com ele, mas ambos já nos havíamos casado antes e tenho certeza de que no fundo eu não o queria para nada mais que não fosse o amante latino que ele já era. Juramos mentiras até que nos cansamos e ele se foi, como uma letra de bolero.



“E se eu comprasse um livro, ou arrumasse os cabelos, ou assistisse a essa fita?” - pensa, entrando na livraria. Vinicius de Moraes tem a vida estampada em duas biografias, bem na estante da frente. Lembra da filha adolescente, que gastou sua Antologia Poética copiando os poemas para os namorados. Pega uma das biografias nas mãos. Os livros estão tão caros! Olha a moça ao lado, elegante no seu sobretudo de lã grená, mãos bem cuidadas escolhendo livros na prateleira . Não pode deixar de comparar seu próprio sobretudo, que já teve dias melhores, e suas unhas curtas, sem esmalte. “Preciso dar um jeito na minha aparência”, pensa, escondendo as unhas.




O Casamento IV

Como escapar da mediocridade desses dias iguais, quando procuro nas tuas camisas marcas de batom ou resquícios de algum perfume barato, quem sabe até um fio de cabelo louro dessas polacas com cara de sonsa e fogo entre as pernas, que se abanam no teu nariz? Tua segurança me machuca. Teu olhar tranqüilo me devora. O fato de te saber teu me estraga o apetite e tira o sono. Vejo as noites acabarem em espiral de fumaça, examinando meu corpo para descobrir porque já não te domina. Quero tua cabeça numa bandeja, te maldigo e no entanto meus olhos mendigam teus carinhos tão antigos. O desespero da carteira de cigarros vazia se segue ao desespero dos primeiros raios de sol. Investigo como louca indícios da traição pelo quarto, no porta-luvas do carro, na tua carteira de documentos. Preparo os pratos que gostas, eu que odeio cozinhar, seguindo a receita da cartomante cigana: “ponha no molho dois cravos, deixados de véspera no sereno. Coe o molho num lenço virgem, que deve ser jogado num rio de pedras.” Meu corpo arde em desejos de devorar teu corpo, decifrar teu silêncio e, finalmente vitoriosa, te reduzir à condição de antes, para que voltes a ser alguém que conheço, que me pertence. Porque te sinto escapando dos meus dedos para uma vida tua, para longe do nosso cotidiano de vinte anos de mascarada felicidade.

Céu curitibano fora da livraria. Na Boca mais um ato de bancários em greve. “Eu bem podia plantar amor-perfeito no jardim, naquele canto de pedras”- pensa, passando sem parar pela banca de flores. Arrepia-se de frio com o vento encanado, mas os pés já estão ardendo de cansaço. Um dia lindo, no entanto daria tudo por um sol tropical, areia branca, côco gelado, o velho e tão familiar vento do mar. “Estou envelhecendo” - pensa. A saudade do mar não machuca tanto quanto nos primeiros meses. “Quem te enfeitiçou, o mar m’arrebatou...”




Voltar para onde?

Todos os caminhos me levam para longe do teu sol branco, teu movimento do porto, o cheiro salgado das algas, restos, entulhos que atracam na praia na maré baixa. As estradas que percorro têm um perfume de pinheiros e uma gralha azul que canta triste no cair do sol, mas o cheiro do mar está impregnado na minha pele e em algum lugar do meu coração uma bússola absurda aponta o caminho das rochas e pescadores, o ruído das águas batendo no casco dos barcos, o silêncio solene da manhã nascendo, do teu sol branco despontando.
Por que as estradas me levam ao planalto, para o sul, sempre para o sul, quando só o que desejo é voltar e ouvir o ruído alegre de tuas feiras de peixe, o colorido das roupas sem compromisso dos adolescentes, teu movimento contínuo de gente que vem e vai, apressada, tagarela? Talvez seja apenas a certeza de que não encontrarei ali a minha fé, minhas verdades de então. Nem os amigos, que se perderam por outros caminhos, ou já viveram outra vida não compartilhada comigo, e já não somos parecidos, pobres jovens sonhadores, donos da verdade, da simplicidade de soluções definitivas.

... flanela para os pijamas dos gêmeos, aproveitando a liquidação do final de inverno, meias de náilon, um vestido que seja elegante - mas barato- , quem sabe um sorvete nas Lojas Americanas. O relógio pisca novamente a temperatura. Só então nota que está de volta à mesma loja de discos. Entra decidida e compra o da cantora desconhecida e três CD’s de coletâneas, músicas que já tem há anos. A sensação de felicidade se dilui. “Nem sorvete, nem cinema, nem cabelo diferente.” Segue para o estacionamento, levando apenas a saudade de Chico Buarque, além de uma sacola que pesa e um grande cansaço.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poema nº 8




Aprenderia a tocar bandoneón, claro.
Seu projeto de vida era um bandoneón velho, platino, passional.
Seria um botequim miserável. Ela estaria na platéia, indefinida,
submersa na fumaça azulada, escondida a média luz.
Somente seus olhos oceânicos seriam visíveis.
Deles viria a luz necessária, o sopro de ar marítimo.
Navegaria neles o seu tango e os acordes seriam como acordes rajadas de vento.
Ela estaria no seu peito e na sua melodia bêbada.
Sua música marginal incomodaria as normalidades.
Aprenderia a tocar bandoneón e ela seria a dor infinita, o sangue sujando os punhais.
Mas ela seria, siempre, a flor solitária e definitiva.
Seria a estrela distante e grave.

Paulo Cequinel

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A pedidos: o livro que desnuda Serra, Dantas e a privataria

O Conversa Afiada recebeu de amigo navegante mineiro o texto que serve de introdução ao livro “Os porões da privataria” de Amaury Ribeiro Jr.

É um trabalho de dez anos de Amaury Ribeiro Jr, que começou quando ele era do Globo e se aprofundou com uma reportagem na IstoÉ sobre a CPI do Banestado.

Não são documentos obtidos com espionagem – como quer fazer crer o PiG (*), na feroz defesa de Serra.

É o resultado de um trabalho minucioso, em cima de documentos oficiais e de fé pública.

Um dos documentos Amaury Ribeiro obteve depois de a Justiça lhe conceder “exceção da verdade”, num processo que Ricardo Sergio de Oliveira move contra ele. E perdeu.

O processo onde se encontram muitos documentos foi emcaminhado à Justiça pelo notável tucano Antero Paes e Barros, devidamente derrota na última eleição, e pelo relator da CPI do Banestado, o petista José Mentor.

Amaury mostra, pela primeira vez, a prova concreta de como, quanto e onde Ricardo Sergio recebeu pela privatização.

Num outro documento, aparece o ex-sócio de Serra e primo de Serra, Gregório Marin Preciado no ato de pagar mais de US$ 10 milhões a uma empresa de Ricardo Sergio.

As relações entre o genro de Serra e o banqueiro Daniel Dantas estão esmiuçadas de forma exaustiva nos documentos a que Amaury teve acesso. O escritório de lavagem de dinheiro Citco Building, nas Ilhas Virgens britânicas, um paraíso fiscal, abrigava a conta de todo o alto tucanato que participou da privataria.

Não foi a Dilma quem falou da empresa da filha do Serra com a irmã do Dantas. Foi o Conversa Afiada.

Que dedica a essa assunto – Serra com Dantas – uma especial atenção.

Leia a introdução ao livro que aloprou o Serra:

Os porões da privataria

Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do país, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três dos seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, tem o que explicar ao Brasil.

Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marín Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marín. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como (Marin) é conhecido, precisa explicar onde obteve US$ 3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil …

Atrás da máxima “Siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.

A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista – nomeado quando Serra era secretário de planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$ 448 milhões (1) para irrisórios R$ 4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC.

(Ricardo Sergio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m… “, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA)
Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico (2).

O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$ 3,2 milhões no exterior através da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova York. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.

A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$ 17 mil (3 de outubro de 2001) até US$ 375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$ 1,5 milhão.

O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$ 404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, através de contas no exterior, US$ 20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.

O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, entre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.

Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do país para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.

Financiada pelo banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$ 5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$ 10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas tem o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.

Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$ 7,5 milhões em ações da Superbird. com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A…Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.

De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante o Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no país. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia através de sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no país.

Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações — que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade” conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” — foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e as contas sigilosas da América Central ainda nos anos 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenceria…

Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$ 410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.

(1)A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$ 140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$ 3,2 por um dólar.
(2)As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.

(*) PiG: Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Pequeno tratado sobre a vida



Olhou impiedosamente para a própria imagem refletida no espelho do banheiro, procurando os sinais da idade. O espelho embaçado, limpo apenas na área do rosto, transformava-a num fantasma conhecido. Procurou pelas manchas, as antigas, que já havia tratado com ácidos e produtos declarados milagrosos pelas revistas femininas, mas que teimavam em agonia-la, impávidas, resistentes. As novas já se deixavam adivinhar sob a pele, incipientes sardas opacas. Sorriu para a imagem e os dentes, que eram seu orgulho, brilharam um tanto amarelados. Limpou o espelho com a mão até a área do busto, reparando as rugas que se formavam no colo sardento. O peito, firme para a idade, revelou a pele branca, o bico rosado e desbotado. Não queria, mas com firmeza, passou a toalha por toda a superfície do espelho, fitando com desgosto a cintura e o quadril, deformados pela gordura, mas as pernas ainda estavam firmes, a superfície lisa e branca, a pele fina sobre os músculos.
Suspirou e terminou de enxugar-se, espalhando creme onde achava necessário. O ritual a deixava exausta e já não lhe dava prazer. Queria poder vestir todos os dias uma roupa especial e diferente, como as que usava quando era jovem e trabalhava. Nada de jeans e camiseta com ela. Eram saias longas de seda e batas indianas, sandálias de enlouquecer podólatras. Mas esse tempo havia passado, o clima havia esquentado, não sabia de nada que pudesse vestir sem que morresse de calor.
O quarto parecia desabitado sem ele. Era amplo, com guarda-roupas antigos, de madeira maciça, herdados da avó, com um cheiro bom de creme de móveis, que ela mesma passava nos fins de semana, conjurando os demônios para eliminar do mundo as empregadas relapsas. Deitou na cama, sentindo no travesseiro o cheiro dele. A tentação de permanecer deitada era grande, mas sabia que se cedesse corria o risco de voltar a ficar doente, por isso pulou ligeira e desceu as escadas, fingindo que não via a imagem que os espelhos espalhados por todos os cantos da casa refletiam à sua passagem. Não queria olhar-se de novo. Não gostava daquela mulher de cabelos brancos que agora habitava o seu corpo.
O aroma de café fresco animou-a. Era urgente sair de casa antes que percebesse que não havia mais rotina de panelas cheirosas, de mesa posta com capricho. Almoçar no restaurante por quilo, perambular pela cidade nas lojas de 1,99, entrar num salão de bingo. Esquecer da vida, dos netos, dos filhos, de como agora sua vida era um abrir e fechar de portas que davam sempre para um quarto escuro, que era ela mesma e sua solidão.
Antes que abrisse a porta, o telefone tocou. Queria já ter saído, pensou em não atender, mas sabia que nunca conseguiria resistir ao zumbido de um telefone.
-Mamãe, você vai sair hoje? – A voz da filha traia a preocupação, embora ela se esforçasse por parecer casual e alegre. Ela a conhecia, ah, como conhecia tão bem todos eles.
-Já estou de saída, quer alguma coisa da rua? – Ela também procurou parecer despreocupada, mas sabia que a filha era igual a ela e que continuariam o teatro, as duas, fingindo.
-Não. Queria convida-la para o cinema à tarde. Entreguei ontem a encomenda para o restaurante italiano e gostaria de comemorar, ir à uma confeitaria, um cineminha, comprar uma bobagem no shopping. – A quem ela pensa que engana?
-Não posso. Combinei com as irmãs Pascoala de passar na creche.
-Você não vai ficar em casa mesmo, não é? Por que eu posso passar aí e pegar você. – A voz da filha já tinha o toque de alarme, mas ela ficou firme.
-Não se preocupe, querida, eu estou com a tarde cheia de compromissos.
A filha insistiu um pouco mais e desistiu, desligando.
Pronto. A diarista assoviava animada, com vassouras e baldes de água. Precisava sair dali antes que desandasse a ajuda-la e então estaria perdida.
Parecia que há tão pouco tempo as crianças enchiam a casa de coisas fora do lugar. Sapatos, cadernos, agasalhos, revistas. Saiu batendo a porta, desesperada por encontrar alguma coisa que a animasse, uma conversa inteligente, um livro novo de alguém que ainda estivesse vivo e tivesse alguma coisa a ver com ela.
-Todo mundo está indo embora! – pensou.
Mas estava pensando nele. Em como gostavam de entrar numa livraria, num sebo, cada um para um lado, enchendo as cestinhas, e se encontrando no caixa com cara de culpados. Em como ficavam horas discutindo seus pontos de vista sobre o filme que haviam assistido, ele à força de muita conversa convencido a sair de casa. Em como gostavam os dois de jantar no Alemão, tomar um submarino e descer o Largo da Ordem em silêncio, observando os bêbados e os jovens de roupas coloridas.
Quantas vezes pensou em como seria bom ficar sozinha? Milhares, sempre que tinha um monte de louça e pilhas de roupas para lavar, quando a divisão dos trabalhos domésticos era injusta e o orçamento apertado não permitia passeios pelas lojas nem um chopinho aos domingos.
Lá fora estava frio, o vento de maio cortando a alma em fatias geladas. Seus olhos arderam e ela fingiu acreditar que era o frio o responsável. O agasalho era confortável, tinha posto luvas e provavelmente pareceria uma velhinha elegante. Quase sentiu sobre o braço o peso da mão dele, que gostava de guia-la como uma criança enquanto caminhavam.
Quando se conheceram, ela estava saindo de um casamento longo e sem vida. O filho teimava em acompanha-la, ciumento das roupas novas e da mãe reciclada, mas ele a fazia parecer uma adolescente, driblando a vigilância das crias, mandando rosas para o trabalho, levando-a para dançar. Ela havia ficado surpresa com o poeta escondido em camisetas vermelhas com slogans. Era um sindicalista de barbas negras e olhar insano, mas tinha alma de passarinho aquele homem que já fora magoado. Trouxe na bagagem apenas suas camisetas e bandeiras. Ela foi sabiamente substituindo-as por roupas mais apresentáveis, mas foi só o que conseguiu mudar. Sua alma de guerrilheiro permaneceu íntegra, mesmo quando os companheiros se incorporaram àquilo que nós chamamos sistema. Sua barba negra foi branqueando até tornar-se de algodão. Parecia ter uma saúde de ferro e no entanto se fora numa manhã de verão, a mão no peito, o olhar de surpresa para ela, sem volta.
Quis ir junto. Tentou duas vezes, os filhos se alternavam na vigilância, resgatando-a com firmeza. O último neto era uma bolinha loira de olhos abertos para tudo. Não resistiu ao seu apelo de vida, e foi saindo aos poucos de dentro daquela cela sem sons e sem cores. Um pouco de carinho, um livro novo do Chico Buarque, o disco da Maria Rita, a feirinha do Largo.
Agora aquele novo inverno chegando, o primeiro sem ele. Nunca conseguiria explicar aos filhos o que sentia, mas não lhes daria mais nenhum desgosto. Se tinha que ficar, então ficaria, e levaria adiante esse corpo que não era o seu, cheio de marcas e impossibilidades.
Uma mulher vinha na direção oposta, e por uns instantes pensou ser ela mesma, os cabelos tingidos de fogo, as maçãs do rosto atrevidas, o passo firme na calçada. Mas a moça passou por ela sem vê-la, como ela mesma havia passado tantas vezes por outras mulheres, indiferente, o olhar no seu próprio futuro.
Sorriu para ela e a cumprimentou, mesmo sabendo que não teria resposta. E seguiu para o seu almoço, pensando em comprar no caminho um brinquedo para o neto.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poema nº 2



Paulo Cequinel

Nada é tanto
que não possa
voar
passar
valer
pintar
cantar
gritar
falar
ousar
falhar

Nada é menos
ponto
vírgula
viagem
chegar
mesmo

Tudo
calmo
mesmo
que
alvoroço
em
meu
coração

Madame Bovary

  A Velhice II      Quero falar das dores da velhice. Não aquela dor que vemos quando temos coragem de encarar o espelho e aquela mulher (ho...