terça-feira, 23 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
O Anjo da Noite
Às horas mortas,
Todos dormem.
Meus sonhos passeiam pela casa.
O relógio parado
Marca as horas mortas.
Só a lua acompanha meus sonhos
Vazando pela janela.
Alguém se debruça sobre mim
Um rosto antigo
Uma lembrança perdida
Veste-se de branco
Alguém do meu passado
De quem não lembrarei
Quando o dia chegar.
Sonia Nascimento
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Sem ponto final
“... retrato sem cor jogado nos pés. Saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis.”
Chico Buarque de Holanda
Ele
Demora-se na mesa fingindo não notar o garçom, de olho atravessado, enxugando mil vezes o lugar onde o copo de uísque está esquecido. Tem tempo, se quiser pode ficar mais um pouco. Não vai voltar e encontrar Eduarda providenciando algum programa para a noite, deitada no sofá da sala, rodeada de revistas e de celular em punho, procurando o lugar badalado que a Lazinha indicou ainda ontem, quando ele já havia pedido pela oitava vez que “vamos pra casa” e ela fingia não ouvir, os olhos azuis muito arregalados para a amiga, que contava os maiores absurdos sobre a boate da moda.
Lembra que foram aqueles olhos que o enfeitiçaram e o fizeram deixar tudo há apenas um ano. Agora não quer mais saber deles, nem de sua dona, cheia de juventude e energia, louca pela noite de São Paulo, pelos jantares chiques seguidos de horas sem fim nos “dancing”.
Quando não tem o compromisso de hoje, costuma fazer hora até ela sair, fazer suas comprinhas com as amigas, depois elas esticam em algum cinema, o que lhe dá a oportunidade de comer um sanduiche e correr para o quarto, dormir antes que ela chegue. Chama isso “Operação Aborto da Balada”.
Tem quarenta anos mais que ela. No começo os vinte anos de Eduarda eram a sua fonte de juventude. Fazia muito tempo que não se sentia assim, apaixonado. Fez para ela poemas dos quais agora quer esquecer, envergonhado pela infantilidade das trovas – versos de pé quebrado.
Isso foi o ano passado. Agora, reconhece que o que queria era mudar a rotina da sua vida. Mostrar aos amigos que não estava, como eles, caminhando para a morte. Sua empresa estável, depois de quarenta anos passando por altos e baixos de planos econômicos, era um oásis de prosperidade. Seu nome era reconhecido, havia se unido a uma família de peso no ramo, não havia sobressaltos. A mulher, as filhas, o sogro, os netos. Casa no Guarujá, barco, viagens, mas tudo em família. Então, apareceu Eduarda.
Era linda. Amiga da filha mais nova. Os olhos azuis, a voz um tanto rouca, o corpo escultural, não aquele corpo com que sonhava na sua juventude, de curvas e redondezas. Um corpo duro de músculos trabalhados por “personal-trainer”. Suado e dourado. Cabelos louros e tão lisos que pareciam dançar ao menor movimento de sua cabeça. E um sorriso de dentes perfeitos, fruto de aparelhos desde os dez anos, como sua filha.
Não importava que ela falasse só abobrinhas, isso o divertia. Era a sua graça. Não dizer nada sério, gostar de música tecno, ver filmes de romance. Não lia nada, mas quem ligava para isso?
Era doce dormir nos seus braços e quando a beijava o mundo girava e girava. Pediu o divórcio e o sogro retirou-o da sociedade. Isso não o atingiu, tinha um bom nome na praça, iniciou seu próprio negócio. A mulher entrou em depressão, quis morrer, ele não ligou. As filhas se afastaram. Nada disso tinha importância.
Viajaram em lua de mel pela Europa e ela comprou tudo que quis. Parecia uma criança e isso o encantava. Quando voltaram, a lua de mel acabou. Tinha que trabalhar, mas a menina queria festa e romance. Ao dia extenuante do escritório, seguia-se a noite de amor, de farra, de dança, champanhe e mais amor. Agora está tão cansado de Eduarda que não tem vontade de voltar para casa.
Ainda bem que tem o seu encontro secreto. Esperou por ele com ansiedade a semana toda. Paga a conta e o garçom arrisca um sorriso amarelo vendo que ele deixou uma gorjeta na mesa.
Ela
Está feliz, olhando o espelho. Pinta-se e a imagem refletida vai enchendo de cores, como um pintor retocando o auto-retrato.
Escolhe o vestido, um vermelho, com alças finas, sem se importar com sardas do colo e dos braços. E uma sandália de salto, que ajuda a empinar o traseiro. Olha de perfil e vê que está perfeito.
Lembra a moça que levou o marido, uma menina de olhos arregalados e queixo fino, corpo de rapazinho. O que ele viu nela? A garota não tem nada na cabeça! Mas sabe que não pode competir com uma menina de vinte anos. Essa mágoa dorme em algum lugar, lá no fundo.
Quando o marido foi embora, quis morrer. Os dois haviam se conhecido na faculdade, era seu primeiro namorado sério. Casaram e tiveram três filhas. Ela largou o consultório de psicologia para criar as filhas, enquanto ele consolidava o nome da firma do pai, progredindo tanto que se tornou dono.
Nos meses de depressão, viveu num quarto escuro, sem coragem de abrir as janelas, de mudar a camisola, de pentear os cabelos. Não queria acreditar que ele havia ido embora. Era parte dela. Pertencia a ela. Ele a amava, ela sabia, tinha ainda todas as poesias que ele havia feito para ela, que falavam do seu corpo, dos seus olhos, dos seus caminhos. Era um pai perfeito, adorava as meninas, não faria nunca nada para magoá-las. Mas fez.
Então, sarou. Um dia, levantou-se da cama, entrou na banheira e ficou ali, bem uma hora, lavando todos os meses. Deixou-os ir pelo ralo e pôs o melhor vestido, foi ao salão, cortou os cabelos. Rasgou todos os poemas e fez uma montanha com todos os pertences dele, jogando o seu uísque preferido por cima e ateando fogo. Ficou ali, até ver tudo transformado em um montinho de cinzas.
A primeira coisa que fez, depois disso, foi procurar não um psicólogo, como sugeriu sua melhor amiga, mas um cirurgião plástico de fama mundial. Que restaurou seu rosto, seus peitos e cintura. E sua auto-estima. Depois disso, riu à toa, namorou, viajou, aprendeu a dançar flamenco e julgou ter superado tudo.
Não o queria de volta. A vida que levava agora nem se comparava àquela em que havia vivido para ele e para as filhas. Acordava tarde, nua sobre edredons de seda, sem compromissos, doida para se atirar na vida. Mas sentia falta do corpo dele, do cheiro de seu perfume no paletó, dos pés enlaçados quando dormiam.
Um dia, encontraram-se num café. Não podiam fingir que não se conheciam. Eram adultos, tinham três filhas. E trocaram telefones, ao fim de uma conversa aos pouco descontraída. Depois, disso, repetiram os encontros “secretos”, cada vez mais particulares, até que descobriram que queriam, sim, ver-se assim, por toda a vida.
domingo, 14 de novembro de 2010
Poema nº 32
Hospícios e expertos navegantes
Temos visto o chamado dos olhos dos nossos irmãos.
Os que se preparavam para o desastre
neste paredão amarelo cheio de portos.
Crescem hinos à matança.
Que a negociação seja impossível, marinheiros da loucura!
Confundamos nossos algozes com nossos cânticos!
A música será violenta como um veleiro destroçado.
Amor desesperado, oculto, crescendo sob minha pele
Como um lagarto caliente.
Já é hora de poetizar tua próxima morte.
Ânfora de licor mortal. Beber até ser diferente.
Noite de paisagem vermelha
onde crescem demônios em meus escritos.
Queria não te recordar,
amada minha de pele branca e negros cabelos.
Queria não lembrar teu olhar ébrio chegando até minha pele.
Meus dias são inquietos e
minha noite embarcação abandonada entre relâmpagos.
Onde estarão meus irmãos?
Onde dormem esperando?
Pronunciado sol,
não permita que minha pele vacile.
Saquearam minha alma.
O invasor chegou até meu coração e queimou meus olhos,
proibiu meu pranto.
Eu pretendo continuar escrevendo, respirando.
Atiçando o lagarto caliente sob minha pele.
Versos violentos como uma cabeça destroçada.
Nous sommes du soleil.
We love when we play.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Poema nº 5
Explicar o poema suspenso no ar
pronto definido as rimas e as portas abertas
do sonho para o papel não
Explicar o poema suspenso no ar
o poema definido as rimas e as portas todas abertas
Difícil manter a certeza a certeza
O poema vai pintar
Vem comigo que no caminho eu explico
Explicar o poema suspenso no ar,
pronto e definido, as rimas as portas todas abertas.
Domar sua força, dobrar sua fúria,
como colocar as palavras, acender os relâmpagos
definir os limites e dizer: está pronto o poema?
Manter certeza, exata a certeza:
o poema vai pintar, o poema vai cantar e abrir os olhos.
O poema desvenda
a loucura que tua ausência provoca em mim, beijo que estou dando no ar
Difícil manter o poema suspenso no ar.
domingo, 7 de novembro de 2010
VADE RETRO
As pedras das ruas são lisas, pretas e escorregadias, denunciando a idade da cidade. Uma cidadezinha muito velha, de calçadas estreitas e janelas que dão para a rua, facilitando a comunicação entre os passantes e os moradores das casas e, naturalmente, a bisbilhotice.
Dona Maricotinha viu sua vida passar olhando pela janela da casa. Casou-se duas vezes, da primeira teve um par de filhos que agora moram na capital. Do segundo casamento, teve mais cinco, esses sim, todos ao seu redor, obedientes e tão novidadeiros quanto ela. Pois dona Maricotinha é quem sabe mais de todo mundo na cidade, sempre de doces sorrisos de avó, além dos próprios doces que vende pela janela o dia todo, enquanto colhe as notícias para passá-las adiante. Uma fofoqueira, como é conhecida pela maior parte dos habitantes.
Pois foi esse seu dom que livrou a cidade de uma grande calamidade. Contam à boca pequena, que ninguém pode mesmo saber se há fundamento, que chegou para morar na casa antiga do alto do morro um certo figurão, de cuja riqueza ninguém sabia a origem, mas de fama tal que despertou o interesse da alta sociedade da cidade. Essa alta sociedade se compunha de dois ou três causídicos, o juiz, o prefeito, uns tantos médicos, o delegado, o dono do cinema, do supermercado e das duas farmácias. E ainda suas respectivas filhas e mulheres, que imediatamente o classificaram de bom partido.
Pois então, quando esse homem aportou em Santa Maria do Pilar, com seu lindo iate branco cheio de convidados bronzeajavascript:void(0)dos tomadores de champanhe, foi um frisson. Veio gente dos matos para ver e a banda foi convidada a tocar no cais do porto, enquanto os passageiros do iate olhavam divertidos a população em suas melhores roupas, abanando lenços para eles. Nesse dia foi oferecido pelo prefeito um lauto jantar no Iate Clube de Santa Maria do Pilar, aberto somente aos sócios e aos novos habitantes e passageiros do barco. Foi uma farra com o dinheiro público, dizia dona Maricotinha aos seus clientes, enquanto virava os olhinhos de pardal.
Desde o início se tomou de grande antipatia pelo novo morador. Não sabia a origem de seu desassossego, mas o instinto lhe dizia que boa coisa ele não era.
As moças virgens e casadoiras, filhas dos ricos da cidade, prestavam homenagens ao galante e ilustre morador, mas ninguém podia se aproximar de sua casa. Convidados dele eram recebidos no Iate Clube, onde o presidente lhe garantia uma conta sem tamanho de gastos com lagostas e ostras finas, acompanhadas do vinho importado por Gomes&Gomes, Maria Gomes e José Gomes, os donos do supermercado. Vestidas como pinheirinhos de natal, as filhas bem nascidas disputavam a tapas a atenção do belo moço, de cujos olhos azuis se julgavam possuidoras.
Isso já ia de muitos meses, na farra sem fim de jantares no Iate Clube, conta protelada para quando “o meu contador chegar”. Dona Maricotinha se contorcia em cólicas, ora vejam, vocês não enxergam que o desconhecido é o dianho, o tibinga, o inominável? Pois alguém há aqui que lhe tenha visto os pés? Minha mãe já dizia, quer reconhecer o bicho, pois então lhe faça mostrar os pés.
Não adiantava nada falar, estavam todos possuídos pelo poder do desconhecido. A freguesia de doces começou a escassear, dona Maricotinha é contra o progresso. Ele prometeu-me emprego na capital, de motorista, outro de mordomo, outro ainda de médico chefe do hospital central. E seus doces encalhados foram parar no lixo, e cadê dinheiro pra sustentar aquela filharada sem emprego?
Por isso, e só por isso, decidiu dar um fim naquela comédia. Se eles não enxergavam, ela ia fazê-los ver bem de perto os sinais de que estavam adorando o coisa ruim. Chamou o padre e contou um plano. O vigário ficou louco de brabo, ameaçou interná-la, excomungá-la, onde se viu, um homem tão bom e generoso, havia escolhido a cidade para morar com seus queridos amigos. Dono de um iate daquele porte, de caixas e mais caixas de champanhe legítimo.
Resolveu valer-se dos filhos desempregados para a missão que Deus lhe destinou. Um baile havia sido marcado, onde seria coroada a Rainha do Festival da Primavera. Todas as moças sabiam que a escolhida por certo seria a eleita do ilustre morador da cidade. Para essa festa foram encomendadas as flores mais perfumosas, os peixes mais carnudos, as lagostas mais saborosas, o vinho mais caro. Gelo em abundância para o champanhe, roupas da melhor grife da capital. E os doces da sobremesa, quem vai fazer? Torciam o nariz, mas na cidade ninguém melhor que a velhinha fofoqueira para fazer doces, que sabiam aos manjares dos deuses.
Em comissão, as matronas foram à casa da esquina mais movimentada da cidade. Janelas fechadas, nenhuma bulha, e batem até que ela atende, como quem regateia acaba negociando um preço nem de longe sonhado, que lhe cobriria o prejuízo dos últimos meses. Mal sabiam que ela exultava no seu íntimo pela oportunidade de desmascarar o diacho do homem.
No cardápio, estavam incluídos os papos de anjo, os pasteizinhos de Belém, as queijadinhas, quindins, bem-casados e até os olhos de sogra, sua especialidade. Muita calda, sorvetes de cajá, de carambola, pudim de maracujá. E chegou o dia.
Dona Maricotinha na cozinha do Iate clube - espremida entre o cozinheiro francês trazido da capital pelo prefeito e os garçons vestidos de branco, passando com bandejas acima da cabeça e o nariz pro teto - rezava no seu terço de contas de vidro uma novena em intenção de Santa Maria das Dores do Pilar, padroeira da cidade. Rezava e excomungava o cão, que lá no salão, se fazia acompanhar da cambada de puxa-sacos.
Chegou o grande momento da sobremesa. Ela mesma serviria, com os cinco filhos enfileirados e vestidos de pingüim, por ordem das autoridades presentes, arranjadoras da festa. Dona Maricotinha pendurou no pescoço um crucifixo que havia comprado para a ocasião, benzido pelo bispo e mandado pelo correio por um dos filhos da capital. Armou-se de água benta, colocada numa bacia de louça, onde espargiu gotas de água de colônia. Explicou para a mulher do prefeito, que estranhava aquela peça despropositada, que os convidados que comiam papos de anjo lambuzavam os dedos e precisavam lavar as mãos na água perfumada, o que era considerado muito chique pelas pessoas que freqüentavam a sociedade na capital.
Apresentou primeiro ao convidado de honra sua bandeja composta das melhores iguarias que havia preparado. Sua fama já havia chegado ao ilustre senhor, que todo faceiro separou num prato os papos de anjo, os quindins, as compotas de jaca. Foi um descuido? A velhinha tropeça na saia comprida e derruba sobre o convidado a água benta. Foi um estouro de enxofre, o fedor terrível tomou conta do ambiente, uma nuvem amarela cobriu tudo e levou bem uma meia hora até que todos, tontos e de olhos vermelhos, pudessem achar a saída do salão, correndo pelas ruas e chorando sem querer chorar lágrimas de puro enxofre.
Até hoje ninguém sabe dar conta do ilustre senhor e da sua corte. Muita moça casadoira jura que tudo não passou de um plano terrível daquela bruxa malvada para afastar o bom partido, mas quem estava ali jura que viu o capeta estourando em uma nuvem de fumaça, sumindo pra nunca mais.
Dona Maricotinha voltou a vender seus doces, enquanto se incumbe de passar as novidades da cidade. É respeitada pelo padre, pelo prefeito e demais autoridades, que recorrem a ela quando querem fechar negócios com estrangeiros e gente da capital.
Assinar:
Postagens (Atom)
Madame Bovary
A Velhice II Quero falar das dores da velhice. Não aquela dor que vemos quando temos coragem de encarar o espelho e aquela mulher (ho...
-
German tem 6 anos. Cismou de ter um blog, o vô coordenadas, ele entrou nessa vida ontem. E danou a postar coisas que lhe passama pela vida...
-
A Letreira
-
Blog do Mello: MÍDIA BRASILEIRA NÃO DÁ DESTAQUE AO FLAGRANTE DE C... : [Fonte: Facebook do Maurício Machado ] Clique aqui e receba gratu...