domingo, 14 de novembro de 2010
Poema nº 32
Hospícios e expertos navegantes
Temos visto o chamado dos olhos dos nossos irmãos.
Os que se preparavam para o desastre
neste paredão amarelo cheio de portos.
Crescem hinos à matança.
Que a negociação seja impossível, marinheiros da loucura!
Confundamos nossos algozes com nossos cânticos!
A música será violenta como um veleiro destroçado.
Amor desesperado, oculto, crescendo sob minha pele
Como um lagarto caliente.
Já é hora de poetizar tua próxima morte.
Ânfora de licor mortal. Beber até ser diferente.
Noite de paisagem vermelha
onde crescem demônios em meus escritos.
Queria não te recordar,
amada minha de pele branca e negros cabelos.
Queria não lembrar teu olhar ébrio chegando até minha pele.
Meus dias são inquietos e
minha noite embarcação abandonada entre relâmpagos.
Onde estarão meus irmãos?
Onde dormem esperando?
Pronunciado sol,
não permita que minha pele vacile.
Saquearam minha alma.
O invasor chegou até meu coração e queimou meus olhos,
proibiu meu pranto.
Eu pretendo continuar escrevendo, respirando.
Atiçando o lagarto caliente sob minha pele.
Versos violentos como uma cabeça destroçada.
Nous sommes du soleil.
We love when we play.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Poema nº 5
Explicar o poema suspenso no ar
pronto definido as rimas e as portas abertas
do sonho para o papel não
Explicar o poema suspenso no ar
o poema definido as rimas e as portas todas abertas
Difícil manter a certeza a certeza
O poema vai pintar
Vem comigo que no caminho eu explico
Explicar o poema suspenso no ar,
pronto e definido, as rimas as portas todas abertas.
Domar sua força, dobrar sua fúria,
como colocar as palavras, acender os relâmpagos
definir os limites e dizer: está pronto o poema?
Manter certeza, exata a certeza:
o poema vai pintar, o poema vai cantar e abrir os olhos.
O poema desvenda
a loucura que tua ausência provoca em mim, beijo que estou dando no ar
Difícil manter o poema suspenso no ar.
domingo, 7 de novembro de 2010
VADE RETRO
As pedras das ruas são lisas, pretas e escorregadias, denunciando a idade da cidade. Uma cidadezinha muito velha, de calçadas estreitas e janelas que dão para a rua, facilitando a comunicação entre os passantes e os moradores das casas e, naturalmente, a bisbilhotice.
Dona Maricotinha viu sua vida passar olhando pela janela da casa. Casou-se duas vezes, da primeira teve um par de filhos que agora moram na capital. Do segundo casamento, teve mais cinco, esses sim, todos ao seu redor, obedientes e tão novidadeiros quanto ela. Pois dona Maricotinha é quem sabe mais de todo mundo na cidade, sempre de doces sorrisos de avó, além dos próprios doces que vende pela janela o dia todo, enquanto colhe as notícias para passá-las adiante. Uma fofoqueira, como é conhecida pela maior parte dos habitantes.
Pois foi esse seu dom que livrou a cidade de uma grande calamidade. Contam à boca pequena, que ninguém pode mesmo saber se há fundamento, que chegou para morar na casa antiga do alto do morro um certo figurão, de cuja riqueza ninguém sabia a origem, mas de fama tal que despertou o interesse da alta sociedade da cidade. Essa alta sociedade se compunha de dois ou três causídicos, o juiz, o prefeito, uns tantos médicos, o delegado, o dono do cinema, do supermercado e das duas farmácias. E ainda suas respectivas filhas e mulheres, que imediatamente o classificaram de bom partido.
Pois então, quando esse homem aportou em Santa Maria do Pilar, com seu lindo iate branco cheio de convidados bronzeajavascript:void(0)dos tomadores de champanhe, foi um frisson. Veio gente dos matos para ver e a banda foi convidada a tocar no cais do porto, enquanto os passageiros do iate olhavam divertidos a população em suas melhores roupas, abanando lenços para eles. Nesse dia foi oferecido pelo prefeito um lauto jantar no Iate Clube de Santa Maria do Pilar, aberto somente aos sócios e aos novos habitantes e passageiros do barco. Foi uma farra com o dinheiro público, dizia dona Maricotinha aos seus clientes, enquanto virava os olhinhos de pardal.
Desde o início se tomou de grande antipatia pelo novo morador. Não sabia a origem de seu desassossego, mas o instinto lhe dizia que boa coisa ele não era.
As moças virgens e casadoiras, filhas dos ricos da cidade, prestavam homenagens ao galante e ilustre morador, mas ninguém podia se aproximar de sua casa. Convidados dele eram recebidos no Iate Clube, onde o presidente lhe garantia uma conta sem tamanho de gastos com lagostas e ostras finas, acompanhadas do vinho importado por Gomes&Gomes, Maria Gomes e José Gomes, os donos do supermercado. Vestidas como pinheirinhos de natal, as filhas bem nascidas disputavam a tapas a atenção do belo moço, de cujos olhos azuis se julgavam possuidoras.
Isso já ia de muitos meses, na farra sem fim de jantares no Iate Clube, conta protelada para quando “o meu contador chegar”. Dona Maricotinha se contorcia em cólicas, ora vejam, vocês não enxergam que o desconhecido é o dianho, o tibinga, o inominável? Pois alguém há aqui que lhe tenha visto os pés? Minha mãe já dizia, quer reconhecer o bicho, pois então lhe faça mostrar os pés.
Não adiantava nada falar, estavam todos possuídos pelo poder do desconhecido. A freguesia de doces começou a escassear, dona Maricotinha é contra o progresso. Ele prometeu-me emprego na capital, de motorista, outro de mordomo, outro ainda de médico chefe do hospital central. E seus doces encalhados foram parar no lixo, e cadê dinheiro pra sustentar aquela filharada sem emprego?
Por isso, e só por isso, decidiu dar um fim naquela comédia. Se eles não enxergavam, ela ia fazê-los ver bem de perto os sinais de que estavam adorando o coisa ruim. Chamou o padre e contou um plano. O vigário ficou louco de brabo, ameaçou interná-la, excomungá-la, onde se viu, um homem tão bom e generoso, havia escolhido a cidade para morar com seus queridos amigos. Dono de um iate daquele porte, de caixas e mais caixas de champanhe legítimo.
Resolveu valer-se dos filhos desempregados para a missão que Deus lhe destinou. Um baile havia sido marcado, onde seria coroada a Rainha do Festival da Primavera. Todas as moças sabiam que a escolhida por certo seria a eleita do ilustre morador da cidade. Para essa festa foram encomendadas as flores mais perfumosas, os peixes mais carnudos, as lagostas mais saborosas, o vinho mais caro. Gelo em abundância para o champanhe, roupas da melhor grife da capital. E os doces da sobremesa, quem vai fazer? Torciam o nariz, mas na cidade ninguém melhor que a velhinha fofoqueira para fazer doces, que sabiam aos manjares dos deuses.
Em comissão, as matronas foram à casa da esquina mais movimentada da cidade. Janelas fechadas, nenhuma bulha, e batem até que ela atende, como quem regateia acaba negociando um preço nem de longe sonhado, que lhe cobriria o prejuízo dos últimos meses. Mal sabiam que ela exultava no seu íntimo pela oportunidade de desmascarar o diacho do homem.
No cardápio, estavam incluídos os papos de anjo, os pasteizinhos de Belém, as queijadinhas, quindins, bem-casados e até os olhos de sogra, sua especialidade. Muita calda, sorvetes de cajá, de carambola, pudim de maracujá. E chegou o dia.
Dona Maricotinha na cozinha do Iate clube - espremida entre o cozinheiro francês trazido da capital pelo prefeito e os garçons vestidos de branco, passando com bandejas acima da cabeça e o nariz pro teto - rezava no seu terço de contas de vidro uma novena em intenção de Santa Maria das Dores do Pilar, padroeira da cidade. Rezava e excomungava o cão, que lá no salão, se fazia acompanhar da cambada de puxa-sacos.
Chegou o grande momento da sobremesa. Ela mesma serviria, com os cinco filhos enfileirados e vestidos de pingüim, por ordem das autoridades presentes, arranjadoras da festa. Dona Maricotinha pendurou no pescoço um crucifixo que havia comprado para a ocasião, benzido pelo bispo e mandado pelo correio por um dos filhos da capital. Armou-se de água benta, colocada numa bacia de louça, onde espargiu gotas de água de colônia. Explicou para a mulher do prefeito, que estranhava aquela peça despropositada, que os convidados que comiam papos de anjo lambuzavam os dedos e precisavam lavar as mãos na água perfumada, o que era considerado muito chique pelas pessoas que freqüentavam a sociedade na capital.
Apresentou primeiro ao convidado de honra sua bandeja composta das melhores iguarias que havia preparado. Sua fama já havia chegado ao ilustre senhor, que todo faceiro separou num prato os papos de anjo, os quindins, as compotas de jaca. Foi um descuido? A velhinha tropeça na saia comprida e derruba sobre o convidado a água benta. Foi um estouro de enxofre, o fedor terrível tomou conta do ambiente, uma nuvem amarela cobriu tudo e levou bem uma meia hora até que todos, tontos e de olhos vermelhos, pudessem achar a saída do salão, correndo pelas ruas e chorando sem querer chorar lágrimas de puro enxofre.
Até hoje ninguém sabe dar conta do ilustre senhor e da sua corte. Muita moça casadoira jura que tudo não passou de um plano terrível daquela bruxa malvada para afastar o bom partido, mas quem estava ali jura que viu o capeta estourando em uma nuvem de fumaça, sumindo pra nunca mais.
Dona Maricotinha voltou a vender seus doces, enquanto se incumbe de passar as novidades da cidade. É respeitada pelo padre, pelo prefeito e demais autoridades, que recorrem a ela quando querem fechar negócios com estrangeiros e gente da capital.
domingo, 31 de outubro de 2010
Estamos en Festa!!!!
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Um lago azul no olhar
Do diário de Tânia sobre seu encontro com o passado.
19 de agosto – a caminho de Brasília.
Dentro do carro é um inferno quente, mas não adianta abrir a janela. Um caminhão me impede a ultrapassagem na estrada onde o asfalto é apenas uma lembrança, por isso decido parar no posto, que me anuncia ser a última oportunidade de comer decentemente. Além disso, meus cabelos estão duros da poeira e o ar condicionado do carro não funciona. O eletricista do posto diz que o conserto vai demorar pelo menos uma hora. Tudo bem, não tenho pressa. Abro o porta-malas e procuro na bagagem uma muda de roupa e toalha, pego a frasqueira e caminho até o banheiro. A ducha de água fria alivia o calor. Vejo a água levar para o ralo o pó da estrada. Os cabelos enrolados na toalha, visto com cuidado a roupa para não molhá-la no chão encharcado. Fora do chuveiro e dos reservados, um espelho de bom tamanho e uma bancada com tomada onde ligar o secador, é tudo que eu preciso para melhorar a aparência cansada de tantas horas rodando pelo cerrado. Procuro uma escova na frasqueira, mas não consigo me concentrar na busca, inquieta com a mulher ao meu lado que insiste em me olhar pelo espelho. Alguma coisa naqueles olhos azuis me lembra alguém. Uma mulher grande, vestida de cor turquesa, os cabelos claros crespos por uma permanente mal feita. Tem aparência de desleixo. Olha insistente e se aproxima com um sorriso acanhado. Seus dentes são bonitos e afinal consigo lembrar.
-Tânia – ela diz, e sua voz era a mesma há trinta e cinco anos.
Recordo muito bem quando a vi pela primeira vez. Era linda, com seus cabelos claros irradiando a luz, e esse mesmo sorriso de criança. Naqueles dias era recém casada e esperava um bebê.
-Eu nem acredito! Maria Augusta. No meio do nada – aquele estradão sem fim no cerrado.
Ela também não tem pressa. Está esperando um ônibus que só vai chegar dali a duas horas. Vai para São Paulo depois de morar em Cristalina por dois anos. Os filhos estão espalhados pelo Brasil e ela se divide.
Tanto tempo passado convida a confidências. Eu conto que fiquei viúva, que minha filha trabalha no gabinete do ministro, que estou de passagem, no mês que vem embarco para a África, agora sou missionária. Falo dos netos e abro a carteira para mostrar as fotos.
Ela me olha nos olhos e não posso deixar de me sentir incomodada. Deploro que tenha mudado tanto e acho que ela percebe isso. Chora de repente e fico constrangida, não tenho o que dizer. O tempo nos tornou duas estranhas e sei que devia fazer algum gesto de aproximação, uma palavra de carinho, um toque nas mãos, mas, só de pensar, estremeço de agonia. Lembro que tenho lenços descartáveis na frasqueira e os ofereço. Ela enxuga os olhos e assoa o nariz ruidosamente. Acalma-se aos poucos e eu rezo para que pare logo.
Gostaria de não ter que ficar ali, que o carro estivesse pronto e então nos daríamos as mãos e desejaríamos felicidade. Eu seguiria em frente, ela também, e tornaríamos a nos esquecer, quem sabe para sempre. Mas não era assim que ia acontecer, eu sabia. Ela falaria do passado e iríamos lembrar de tudo.
-E como vai Otávio?- eu falo. Fui eu que toquei no assunto, como levada por uma força irresistível.
-Ele morreu. - ela diz. Eu respiro aliviada.
Na primavera de 1970 estivemos todos envolvidos num alucinado romance. Éramos voluntários num projeto com as tribos do Araguaia, promovido pela Universidade de São Paulo. Meu marido Otávio, antropologista, desenvolvia sua tese de mestrado. Eu o tinha acompanhado, decidida a escrever um livro sobre a luta dos índios pela posse da terra. Conhecemos Marcelo e Maria Augusta no acampamento. Faziam parte do Projeto Rondon. Ele era médico recém formado e ela ainda estudava sociologia. Estava grávida e perdeu a criança no primeiro mês no acampamento. Eu a admirei por não ter desistido do projeto. Durante algum tempo tememos por sua vida. Afundou-se na cabana, atendida pelas mulheres índias, recusando os serviços do marido, a pele branca quase transparente. Um dia a vi nadando com os curumins, nua como eles, numa grande algazarra. Havia se curado.
Enquanto durou o trabalho nos dedicamos de corpo e alma, mas no fim da estiagem as águas do rio nos obrigaram a um confinamento que durou dois meses. Nesse período de convivência incorporamos os hábitos da tribo de partilhar os companheiros, primeiro por tédio, depois por atração e quando as águas baixaram não sabíamos mais como sair daquela rede. Enquanto estivemos no Araguaia continuamos a viver dessa forma, mas o fim da missão obrigou-nos à escolha. Otávio confessou que estava irremediavelmente apaixonado por Maria Augusta. Os dois já haviam decidido que iam embora juntos.
Nos meses que se seguiram o mundo virou de cabeça para baixo. O projeto do livro foi esquecido e, já em São Paulo, não conseguia encontrar meu rumo. Fui procurar por um advogado, que providenciou os papéis da separação.
Marcelo sumiu na floresta. Durante muito tempo sua família e organizações de direitos humanos o procuraram, numa peregrinação por repartições e prisões, sem sucesso. Eu sabia que ele havia se ligado a um grupo de guerrilha que passou pelo acampamento no inverno de 1972, uns meses depois da minha partida, porque algumas pessoas que trabalhavam com Otávio costumavam me visitar, mas o assunto era tabu. Ficava às vezes pensando em como teriam sido nossas vidas se eu nunca tivesse aceitado o convite para aquela aventura no meio da floresta. Talvez Marcelo ainda estivesse vivo.
Pedi a separação judicial à revelia de Otávio. Muito tempo depois consegui esquecer. Casei de novo, tive filhos, fiquei viúva.
-Quanto tempo faz?- eu volto a falar, sem perceber que entre a primeira pergunta e esta outra um tempo sem fim havia se passado.
-Vinte anos.
-Vocês foram felizes? – eu pergunto e, embora aparente indiferença, preciso mesmo saber a resposta.
-Um pouco, como todo mundo. Ele me deu quatro filhos.
-Como foi que ele...-ainda hesito em especular, mas ela parece compreender que não quero parecer indelicada.
-Morreu?Acidente, na floresta. Era uma armadilha antiga para pegar jacarés. Ninguém sabe como, ele conhecia aquele lugar como ninguém.
Eu tenho uma intuição de que não é só isso, pelo jeito como ela responde. As mãos nervosas torcem o lenço de papel.
E Marcelo? Ela tinha notícias dele? Quando vi já havia feito essa outra pergunta. Sou eu quem força a passagem e ela vai abrindo a porta, sem oferecer resistência.
-Não, nunca mais. -Nem dele, nem da família, que decidiu não recebê-la quando voltou para São Paulo. Também, o que ela esperava?
Um café me faria bem. Preciso também comer alguma coisa para enfrentar o resto do dia. Faço o convite.
Ela faz um gesto com a mão – Eu não posso, tenho a pressão alta. - enxuga o rosto com o mesmo lenço de papel, o suor umedecendo a raiz do cabelo.
Nessa nossa conversa descubro aos poucos a menina que conquistou meu marido. Sua voz ainda é doce, as mãos acompanham a fala num balé delicado, sugerindo que eu a siga pelo tempo, em busca das explicações que não aconteceram. Fala um pouco das dificuldades que enfrentou para recuperar as anotações de Otávio, que viraram um livro póstumo muito procurado. Isso me surpreende, eu nunca tive notícias sobre esse livro. Anoto o título, prometo procurar nas livrarias.
Decido falar das minhas próprias dificuldades, perseguida e impedida de dar aulas até o final dos anos 80, mas não consigo ir muito além de umas poucas confidências, a mágoa adormecida teimando em permanecer no limbo, para não despertar fantasmas. Vem um café na bandeja, com o pão de queijo fumegando, e eu agarro a xícara como um náufrago aos restos da embarcação para não ter que continuar falando sobre tudo aquilo que é tão difícil recordar.
O tempo passou. O eletricista me entrega as chaves do carro, que está pronto para partir. Ela se apressa em me dar o endereço e telefone. Eu também lhe dou o meu, impresso no cartão da missão.
-Adeus – ela diz, com sua voz de menina. Olho seus olhos escondidos sobre dobras e eles têm o mesmo brilho de um lago sob o sol.
Um encontro com o passado. Um truque do destino, no meio do cerrado. De um lado a vegetação das estepes, do outro o posto ficando para trás pelo retrovisor, como a minha juventude no fundo dos olhos daquela mulher.
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