"Vós, que vireis na crista da onda em que nos afogamos, não vos esqueceis do tempo terrível a que haveis escapado "(Bertold Brecht).
sábado, 31 de março de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
Colei do TUDO EM CIMA
http://tudo-em-cima.blogspot.com.br/2012/03/nossos-quixotinhos-destemidos-e.html
Nossos quixotinhos destemidos e desaforados diante do Clube Militar
Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados.
- do Blog de Hildegard Angel, no R7. Na ditadura, morreram sob tortura seu irmão Stuart Angel, sua cunhada Sonia, e sua mãe Zuzu Angel, morta "acidentalmente" por militares na saída do túnel que hoje tem seu nome, no Rio.
Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro, quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o “31 de Março” e contra a Comissão da Verdade.
Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me, coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.
A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou!
Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!
Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?
Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontradas, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.
E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar. ”Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.
Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.
Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão.
Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”, manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha, testemunhando tudo aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.
Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os PMs me viram.
Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.
A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações? Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?
- do Blog de Hildegard Angel, no R7. Na ditadura, morreram sob tortura seu irmão Stuart Angel, sua cunhada Sonia, e sua mãe Zuzu Angel, morta "acidentalmente" por militares na saída do túnel que hoje tem seu nome, no Rio.
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| A jornalista Hildegard Angel (esq.) chora durante a manifestação contra a "festa" dos militares pelo golpe |
Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me, coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.
A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou!
Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!
Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?
Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontradas, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.
E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar. ”Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.
Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.
Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão.
Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”, manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha, testemunhando tudo aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.
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| Milico golpista leva cusparada na cara |
Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.
A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações? Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?
quinta-feira, 29 de março de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
Movimento de Mulheres de Antonina: As Mulheres e o Poder
Movimento de Mulheres de Antonina: As Mulheres e o Poder: Durante grande parte da História do Brasil, as mulheres não tiveram participação na política, pois a elas eram negados os principais dire...
domingo, 18 de março de 2012
Oportunismo Confesso
Como está na moda falar do inominável, resolvi republicar (não de república, mas de republicação,antes que o rapazinho dos porquês interfira) um conto meu, inspirado em uma cidade imaginária, num reino muito distante e escrito há vários anos anos. Aliás, e como a maioria dos outros contos que fiz, continua inédito no bom papel.
VADE
RETRO
As pedras das ruas são lisas, pretas e escorregadias,
denunciando a idade da cidade. Uma cidadezinha muito velha, de calçadas
estreitas e janelas que dão para a rua, facilitando a comunicação entre os
passantes e os moradores das casas e, naturalmente, a bisbilhotice.
Dona
Maricotinha viu sua vida passar olhando pela janela da casa. Casou-se duas
vezes, da primeira teve um par de filhos que agora moram na capital. Do segundo
casamento, teve mais cinco, esses sim, todos ao seu redor, obedientes e tão
novidadeiros quanto ela. Pois dona Maricotinha é quem sabe mais de todo mundo
na cidade, sempre de doces sorrisos de avó, além dos próprios doces que vende
pela janela o dia todo, enquanto colhe as notícias para passá-las adiante. Uma
fofoqueira, como é conhecida pela maior parte dos habitantes.
Pois
foi esse seu dom que livrou a cidade de uma grande calamidade. Contam à boca
pequena, que ninguém pode mesmo saber se há fundamento, que chegou para morar
na casa antiga do alto do morro um certo figurão, de cuja riqueza ninguém sabia
a origem, mas de fama tal que despertou o interesse da alta sociedade da
cidade. Essa alta sociedade se compunha de dois ou três causídicos, o juiz, o
prefeito, uns tantos médicos, o delegado, o dono do cinema, do supermercado e
das duas farmácias. E ainda suas respectivas filhas e mulheres, que
imediatamente o classificaram de bom partido.
Pois
então, quando esse homem aportou em Santa Maria do Pilar, com seu lindo iate
branco cheio de convidados bronzeados tomadores de champanhe, foi um frisson.
Veio gente dos matos para ver e também a banda, que foi convidada a tocar no cais do
porto, enquanto os passageiros do iate olhavam divertidos a população em suas
melhores roupas, abanando lenços para
eles. Nesse dia foi oferecido pelo prefeito um lauto jantar no Iate Clube de
Santa Maria do Pilar, aberto somente aos sócios e aos novos habitantes e
passageiros do barco. Foi uma farra com o dinheiro público, dizia dona
Maricotinha aos seus clientes, enquanto virava os olhinhos de pardal.
Desde
o início se tomou de grande antipatia pelo novo morador. Não sabia a origem de
seu desassossego, mas o instinto lhe dizia que boa coisa ele não era.
As
moças virgens e casadoiras, filhas dos ricos da cidade, prestavam homenagens ao
galante e ilustre morador, mas ninguém podia se aproximar de sua casa.
Convidados dele eram recebidos no Iate Clube, onde o presidente lhe garantia
uma conta sem tamanho de gastos com lagostas e ostras finas, acompanhadas do
vinho importado por Gomes&Gomes, Maria Gomes e José Gomes, os donos do
supermercado. Vestidas como pinheirinhos de natal, as filhas bem nascidas
disputavam a tapas a atenção do belo moço, de cujos olhos azuis se julgavam
possuidoras.
Isso
já ia de muitos meses, na farra sem fim de jantares no Iate Clube, conta
protelada para quando “o meu contador chegar”. Dona Maricotinha se contorcia em
cólicas, ora vejam, vocês não enxergam que o desconhecido é o dianho, o
tibinga, o inominável? Pois alguém há aqui que lhe tenha visto os pés? Minha
mãe já dizia, quer reconhecer o bicho, pois então lhe faça mostrar os pés.
Não
adiantava nada falar, estavam todos possuídos pelo poder do desconhecido. A
freguesia de doces começou a escassear, dona Maricotinha é contra o progresso.
Ele prometeu-me emprego na capital, de motorista, outro de mordomo, outro ainda
de médico chefe do hospital central. E seus doces encalhados foram parar no
lixo, e cadê dinheiro pra sustentar aquela filharada sem emprego?
Por
isso, e só por isso, decidiu dar um fim naquela comédia. Se eles não enxergavam,
ela ia fazê-los ver bem de perto os sinais de que estavam adorando o coisa
ruim. Chamou o padre e contou um plano. O vigário ficou louco de brabo, ameaçou
interná-la, excomungá-la, onde se viu, um homem tão bom e generoso, havia
escolhido a cidade para morar com seus queridos amigos. Dono de um iate daquele
porte, de caixas e mais caixas de champanhe legítimo.
Resolveu
valer-se dos filhos desempregados para a missão que Deus lhe destinou. Um baile
havia sido marcado, onde seria coroada a Rainha do Festival da Primavera. Todas
as moças sabiam que a escolhida por certo seria a eleita do ilustre morador da
cidade. Para essa festa foram encomendadas as flores mais perfumosas, os peixes
mais carnudos, as lagostas mais saborosas, o vinho mais caro. Gelo em
abundância para o champanhe, roupas da melhor grife da capital. E os doces da
sobremesa, quem vai fazer? Torciam o nariz, mas na cidade ninguém melhor que a
velhinha fofoqueira para fazer doces, que sabiam aos manjares dos deuses.
Em
comissão, as matronas foram à casa da esquina mais movimentada da cidade. Janelas
fechadas, nenhuma bulha, e batem até que ela atende, como quem regateia acaba
negociando um preço nem de longe sonhado, que lhe cobriria o prejuízo dos
últimos meses. Mal sabiam que ela exultava no seu íntimo pela oportunidade de
desmascarar o diacho do homem.
No
cardápio, estavam incluídos os papos de anjo, os pasteizinhos de Belém, as
queijadinhas, quindins, bem-casados e até os olhos de sogra, sua especialidade.
Muita calda, sorvetes de cajá, de carambola, pudim de maracujá. E chegou o dia.
Dona
Maricotinha na cozinha do Iate clube - espremida entre o cozinheiro francês
trazido da capital pelo prefeito e os garçons vestidos de branco, passando com
bandejas acima da cabeça e o nariz pro teto - rezava no seu terço de contas de
vidro uma novena em intenção de Santa Maria das Dores do Pilar, padroeira da cidade.
Rezava e excomungava o cão, que lá no salão, se fazia acompanhar da cambada de
puxa-sacos.
Chegou
o grande momento da sobremesa. Ela mesma serviria, com os cinco filhos
enfileirados e vestidos de pingüim, por ordem das autoridades presentes,
arranjadoras da festa. Dona Maricotinha pendurou no pescoço um crucifixo que
havia comprado para a ocasião, benzido pelo bispo e mandado pelo correio por um
dos filhos da capital. Armou-se de água benta, colocada numa bacia de louça,
onde espargiu gotas de água de colônia. Explicou para a mulher do prefeito, que
estranhava aquela peça despropositada, que os convidados que comiam papos de
anjo lambuzavam os dedos e precisavam lavar as mãos na água perfumada, o que
era considerado muito chique pelas pessoas que freqüentavam a sociedade na
capital.
Apresentou primeiro ao convidado de honra sua
bandeja composta das melhores iguarias que havia preparado. Sua fama já havia
chegado ao ilustre senhor, que todo faceiro separou num prato os papos de anjo,
os quindins, as compotas de jaca. Foi um descuido? A velhinha tropeça na saia
comprida e derruba sobre o convidado a água benta. Foi um estouro de enxofre, o
fedor terrível tomou conta do ambiente, uma nuvem amarela cobriu tudo e levou
bem uma meia hora até que todos, tontos e de olhos vermelhos, pudessem achar a
saída do salão, correndo pelas ruas e chorando sem querer chorar lágrimas de
puro enxofre.
Até
hoje ninguém sabe dar conta do ilustre senhor e da sua corte. Muita moça casadoira
jura que tudo não passou de um plano terrível daquela bruxa malvada para
afastar o bom partido, mas quem estava ali jura que viu o capeta estourando em
uma nuvem de fumaça, sumindo pra nunca mais.
Dona
Maricotinha voltou a vender seus doces, enquanto se incumbe de passar as
novidades da cidade. É respeitada pelo padre, pelo prefeito e demais
autoridades, que recorrem a ela quando querem fechar negócios com estrangeiros
e gente da capital.
Senador Suplicy
Ao vê-lo ontem na Comissão de Justiça do Senado, com o seu jeito típico, tranquilo, relatando uma situação no Pinheirinho (de São José dos Campos), na sua fala para a ministra Eliana Calmon do CNJ, fiquei emocionada e fico agora, enquanto escrevo. O senador Suplicy é, como o deputado Rosinha, uma daquelas pessoas de quem muito me orgulho, porque sou petista e por saber que eles também são. Uma daquelas pessoas que nos enchem de fé no ser humano e na capacidade que temos de sermos just@s e bons(oas), de justezas e justiças e bondades legítimas, sem necessidade de afirmá-las com palavras, porque o fazem com ações. A eles junto, agora, a ministra Eliana. Minha lista é grande, o que significa que minha fé no ser humano também é.
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