sábado, 1 de maio de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
POEMA PARA GERMAN
Tanto por mim tem feito
e brilha tanto a luz dos seus olhinhos que,
para este meu menino,
meu velho coração é pouco, dois ou três precisaria ter.
Tomo sua mãozinha e atravessamos o escuro:
seu avô está aqui, meu menino, tudo agora está seguro.
Tanto amo o meu German e suas histórias de sonhos,
que acordo desse jeito, assim, igualzinho ao meu menino.
Para que não sinta medo sonho que posso tudo e voamos, nós dois.
Agora, no vôo dos sonhos dele, tomo sua mãozinha e sinto-me leve,
e sei que estou seguro porque meu neto está comigo.
Então, protegido, posso voar em seu sonho.
Sendo apenas o avô de German,
ainda assim e plenamente, proclamo: sou invencível.
Vô Paulo, 12/11/2007
e brilha tanto a luz dos seus olhinhos que,
para este meu menino,
meu velho coração é pouco, dois ou três precisaria ter.
Tomo sua mãozinha e atravessamos o escuro:
seu avô está aqui, meu menino, tudo agora está seguro.
Tanto amo o meu German e suas histórias de sonhos,
que acordo desse jeito, assim, igualzinho ao meu menino.
Para que não sinta medo sonho que posso tudo e voamos, nós dois.
Agora, no vôo dos sonhos dele, tomo sua mãozinha e sinto-me leve,
e sei que estou seguro porque meu neto está comigo.
Então, protegido, posso voar em seu sonho.
Sendo apenas o avô de German,
ainda assim e plenamente, proclamo: sou invencível.
Vô Paulo, 12/11/2007
sexta-feira, 23 de abril de 2010
O Porto Seco
(do jeito de guimarães rosa)
O porto seco, de sem-mar, do de sal depositado,
do além mais do sol, de não alcançar, e descer até;
e de rio, remanso vindo, vindo, vindo, nenhum chegando, desanunciado.
Escuto não, pois? Porto seco, de aonde?
De vai, de vem, de tudo maquinado no quente.
Longe de muito, o viajar começado - aonde o trajeto? - de lá, mesmo, e mesmo que rio que é, sendo, serpenteado, do dessa figura do não-chegar.
De rios, eu, nós, não conjugamos entendimentos, e ciência não, se tanto nunca sabemos,
nunca é, e, quando olhos-mesmo-de-ver, possível fosse,
águas de barrenta prenhez: não sei, é, hão-de, do jeito de depois, eu, nós, não-sendo foi.
Quanto nem fosse que tantos os entrementes, de assim, e apois, e, passar de árvores,
renhida a luta galhosa,de vegetais torcidosos, de doloridos uivos, raiz-de-onde,
vindo, de ter chegado, faisqueira de bem de antes: aonde, não sei, se?
Porto do seco, inseguro-não, do tremendo: volteada a costa, do jeito indo, é não,
sendo cais-de-chegar, não fundeia de ausente muito, de não vindo,
de saído ancorado no lugar de lá, dos antes, do tudo,
do porto onde exatos são os afundamentos, os de não chegares, de ver-não, de-nunca-foi.
Há o porto, do vir de onde, do depois de, do de ventos marujados.
Há de ser, fosse do que vem, do é que vinha, anunciada é a voz: porto seco, de águas-não.
Aonde, não sei, se?
(Antonina, dezembro/2001)
terça-feira, 20 de abril de 2010
Análise sobre o DATAFOLHAConversei com um dos principais analistas brasileiros de pesquisas de mercado, para entender esse imbróglio das pesquisas eleitorais para presidente da República.
O ponto fora da curva foi, efetivamente, a pesquisa Datafolha de 29 de março passado. Todos os institutos – inclusive o próprio Datafolha – apontavam para uma aproximação crescente entre Dilma e Serra, com perspectiva de empate no curto prazo.
Aí vem a pesquisa Datafolha e apontou para um cenário diferente, o aumento da distância entre os dois candidatos, sem nenhum fato novo que justificasse a mudança.
A estranheza aumentou quando Mauro Paulino, diretor do Datafolha, escreveu artigo para a Folha apresentando os motivos que via para a mudança.
Primeiro, alegou que a melhora se deveu à redução das chuvas em São Paulo. Mas como assim, se o estado onde se registrou a maior mudança foi o Rio Grande do Sul? Como poderia o fim das chuvas em São Paulo influenciar o eleitor do Rio Grande do Sul e não influenciar o de São Paulo.
A segunda alegação era mais risível ainda: a mudança se deveria à entrevista dada por Serra ao programa do Datena. Nem dentro do Datafolha se acredita nessa história, diz o analista. Como supor que uma entrevista de Datena tivesse o condão de mudar a opinião de 5 milhões de eleitores?
As duas explicações de Paulino eram muito fracas para explicar mudanças tão grandes como aquelas. Três semanas depois, vem a pesquisa seguinte, que teria tudo para registrar uma melhorar de Serra, porque imediatamente após o anúncio da candidatura, com muita mídia em torno do evento. Deveria haver um aumento da diferença entre Serra e Dilma, mas a diferença ficou no mesmo lugar da pesquisa anterior.
Quando não era para haver, houve; e quando era para haver, não houve.
Diferenças metodológicas
Existem diferenças metodológicas entre três institutos – Ibope, Vox Populi e Sensus – e o Datafolha, explica o estatístico. No item escolaridade, a amostra do Datafolha tem até 12 pontos de diferença em relação a do IBGE.
É o único dos grandes institutos que adota essa metodologia de pesquisa, de aplicar os questionários em pontos de maior movimento das cidades escolhidas – e não nas casas dos eleitores.
Em princípio, é uma metodologia defensável também, desde que se tenha o cuidado ao inferir os resultados. Pode provocar diferenças, ao não entrevistar quem não sai de casa.
O que chama a atenção, porém, é que até o fatídico dia 29 de março, essa metodologia não estava trazendo nenhuma diferença relevante em relação aos demais institutos. As duas últimas pesquisas do Datafolha registraram grande convergência com os resultados dos demais institutos. Os quatro institutos estavam completamente dentro da reta estimada de evolução dos votos de ambos os candidatos.
O que teria ocorrido, então?
O estatístico não sabe dizer.
Pergunto, em tese, onde pode ocorrer direcionamento de pesquisas.
Em sua opinião, não é nem na definição da amostragem, na escolha dos municípios. Todos esses procedimentos seriam facilmente identificados, já que registrados no TSE.
Se algum instituto quiser manipular, a etapa adequada é a do processamento. Lá, é o analista, o computador e o operador.
Autor: luisnassif -
O ponto fora da curva foi, efetivamente, a pesquisa Datafolha de 29 de março passado. Todos os institutos – inclusive o próprio Datafolha – apontavam para uma aproximação crescente entre Dilma e Serra, com perspectiva de empate no curto prazo.
Aí vem a pesquisa Datafolha e apontou para um cenário diferente, o aumento da distância entre os dois candidatos, sem nenhum fato novo que justificasse a mudança.
A estranheza aumentou quando Mauro Paulino, diretor do Datafolha, escreveu artigo para a Folha apresentando os motivos que via para a mudança.
Primeiro, alegou que a melhora se deveu à redução das chuvas em São Paulo. Mas como assim, se o estado onde se registrou a maior mudança foi o Rio Grande do Sul? Como poderia o fim das chuvas em São Paulo influenciar o eleitor do Rio Grande do Sul e não influenciar o de São Paulo.
A segunda alegação era mais risível ainda: a mudança se deveria à entrevista dada por Serra ao programa do Datena. Nem dentro do Datafolha se acredita nessa história, diz o analista. Como supor que uma entrevista de Datena tivesse o condão de mudar a opinião de 5 milhões de eleitores?
As duas explicações de Paulino eram muito fracas para explicar mudanças tão grandes como aquelas. Três semanas depois, vem a pesquisa seguinte, que teria tudo para registrar uma melhorar de Serra, porque imediatamente após o anúncio da candidatura, com muita mídia em torno do evento. Deveria haver um aumento da diferença entre Serra e Dilma, mas a diferença ficou no mesmo lugar da pesquisa anterior.
Quando não era para haver, houve; e quando era para haver, não houve.
Diferenças metodológicas
Existem diferenças metodológicas entre três institutos – Ibope, Vox Populi e Sensus – e o Datafolha, explica o estatístico. No item escolaridade, a amostra do Datafolha tem até 12 pontos de diferença em relação a do IBGE.
É o único dos grandes institutos que adota essa metodologia de pesquisa, de aplicar os questionários em pontos de maior movimento das cidades escolhidas – e não nas casas dos eleitores.
Em princípio, é uma metodologia defensável também, desde que se tenha o cuidado ao inferir os resultados. Pode provocar diferenças, ao não entrevistar quem não sai de casa.
O que chama a atenção, porém, é que até o fatídico dia 29 de março, essa metodologia não estava trazendo nenhuma diferença relevante em relação aos demais institutos. As duas últimas pesquisas do Datafolha registraram grande convergência com os resultados dos demais institutos. Os quatro institutos estavam completamente dentro da reta estimada de evolução dos votos de ambos os candidatos.
O que teria ocorrido, então?
O estatístico não sabe dizer.
Pergunto, em tese, onde pode ocorrer direcionamento de pesquisas.
Em sua opinião, não é nem na definição da amostragem, na escolha dos municípios. Todos esses procedimentos seriam facilmente identificados, já que registrados no TSE.
Se algum instituto quiser manipular, a etapa adequada é a do processamento. Lá, é o analista, o computador e o operador.
Autor: luisnassif -
domingo, 18 de abril de 2010
A mudança na amostragem da DATAFOLHA ( do Portal do Nassif)
O site «os amigosdopresidente» constatou que entre a pesquisa de fevereiro e a de março, o Datafolha aumentou substancialmente o número de bairros consultados em São Paulo – mantendo a mesma quantidade em outros estados.
Teoricamente, pode não ter influência no resultado, se a ponderação, o peso de São Paulo na pesquisa, permanecer o mesmo.
Os pontos que precisamos discutir:
1. Porque ampliou o universo de pesquisa em São Paulo? Havia alguma razão objetiva para fazê-lo, sendo que as maiores dúvidas sobre Serra se concentravam no sul? Mas seria bom saber quais razões. Ou teria sido a pressa em montar a pesquisa para o lançamento da candidatura Serra que fez reduzir, antes, o universo pesquisado?É possível que haja razões técnicas, não estou pré-julgando.
2. Que tipo de interferência essa mudança da amostragem pode ter sobre o resultado final? Aumenta a margem para eventual manipulação de resultados? É possível descartar bairros onde a votação não favoreça o candidato da Folha? Que tipo de auditoria é feita para garantir a lisura dos procedimentos. Os questionários são numerados para evitar descarte?
3. Afinal, saíram os dados detalhados da surpreendente pesquisa extraordinária feita pelo Datafolha – que colidiu com os resultados de todos os demais institutos?
Por Daniel Menezes
Na pesquisa por conglomerados, como parece ser o caso da metodologia do datafolha, há o sorteio das regiões aonde os questionários serão aplicados. Pensando tecnicamente, pode ter acontecido um direcionamento meramente estatístico.
É válido ressaltar que devemos olhar, não apenas a margem de erro, mas também o intervalo de confiança.
Geralmente, as pesquisas eleitorais apresentam um intervalo de confiança de 95%. Isto significa dizer que, de 100 pesquisas produzidas, 5 cairão fora da margem de erro, trazendo diferenças discrepantes da realidade. Esta é outra possibilidade técnica.
Porém, na medida em que as pesquisas são repetidas, o intervalo de confiança melhora significativamente, diminuindo a possibilidade dos números oscilarem fora da margem de erro.
Quando 4 institutos fazem várias rodadas de pesquisa e apenas um destoa dos demais, a tendência desta pesquisa dissonante ter caído naquela pequena possibilidade de estar fora da margem de erro aumenta significativamente.
Se erro tiver sido, de fato, técnico, acredito que a explicação está aí.
O site «os amigosdopresidente» constatou que entre a pesquisa de fevereiro e a de março, o Datafolha aumentou substancialmente o número de bairros consultados em São Paulo – mantendo a mesma quantidade em outros estados.
Teoricamente, pode não ter influência no resultado, se a ponderação, o peso de São Paulo na pesquisa, permanecer o mesmo.
Os pontos que precisamos discutir:
1. Porque ampliou o universo de pesquisa em São Paulo? Havia alguma razão objetiva para fazê-lo, sendo que as maiores dúvidas sobre Serra se concentravam no sul? Mas seria bom saber quais razões. Ou teria sido a pressa em montar a pesquisa para o lançamento da candidatura Serra que fez reduzir, antes, o universo pesquisado?É possível que haja razões técnicas, não estou pré-julgando.
2. Que tipo de interferência essa mudança da amostragem pode ter sobre o resultado final? Aumenta a margem para eventual manipulação de resultados? É possível descartar bairros onde a votação não favoreça o candidato da Folha? Que tipo de auditoria é feita para garantir a lisura dos procedimentos. Os questionários são numerados para evitar descarte?
3. Afinal, saíram os dados detalhados da surpreendente pesquisa extraordinária feita pelo Datafolha – que colidiu com os resultados de todos os demais institutos?
Por Daniel Menezes
Na pesquisa por conglomerados, como parece ser o caso da metodologia do datafolha, há o sorteio das regiões aonde os questionários serão aplicados. Pensando tecnicamente, pode ter acontecido um direcionamento meramente estatístico.
É válido ressaltar que devemos olhar, não apenas a margem de erro, mas também o intervalo de confiança.
Geralmente, as pesquisas eleitorais apresentam um intervalo de confiança de 95%. Isto significa dizer que, de 100 pesquisas produzidas, 5 cairão fora da margem de erro, trazendo diferenças discrepantes da realidade. Esta é outra possibilidade técnica.
Porém, na medida em que as pesquisas são repetidas, o intervalo de confiança melhora significativamente, diminuindo a possibilidade dos números oscilarem fora da margem de erro.
Quando 4 institutos fazem várias rodadas de pesquisa e apenas um destoa dos demais, a tendência desta pesquisa dissonante ter caído naquela pequena possibilidade de estar fora da margem de erro aumenta significativamente.
Se erro tiver sido, de fato, técnico, acredito que a explicação está aí.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Parricídio tucano ou afasia suicida de José Serra
Por Gilberto Felisberto Vasconcellos
O que significa, do ponto de vista político e psicológico, o personagem José Serra no cenário da direita no Brasil e na América Latina?
Foi líder estudantil da UNE, o que não quer dizer talento retórico nem capacidade intelectual; todavia se no passado porventura possuía algum charme persuasivo, atualmente não lhe sobrou nada, e isso está relacionado com a sua progressiva direitização depois do Chile, ou talvez até antes.
Serra em Santiago foi uma espécie de garçom ou mordomo de FHC, a quem deverá o futuro ingresso nas altas rodas banqueiras em São Paulo, tendo apoio da missa católica de Franco Montoro para fazer-se deputado.
Do Chile, José Serra vem carimbado de “marxista”, fazendo marola que estava na trincheira do marxismo, quando na verdade sua quitanda era a Cepal burguesa e desenvolvimentista, sob a direção de Raul Prebish, economista ponta de lança do imperialismo inglês na Argentina, odiado por peronistas, nacionalistas e trotskistas.
Não há contribuição alguma de José Serra à teoria econômica na América Latina. Isso foi dito em 1978 por Ruy Mauro Marini, artigo publicado na Revista de Sociologia Mexicana. José Serra, sem o menor escrúpulo intelectual, censurou o artigo de Ruy Mauro Marini no Cebrap. Neste artigo, aparecia como ele é hoje: um homem que se ufana da burguesia industrial e financeira paulista, um tecnocrata operador do capital monopolista internacional.
Ruy Mauro Marini antecipou o balé financeiro multinacional de José Serra, origem pobre, mas fascinado pelo Banco e pelo poder do dinheiro fazer dinheiro, que não tem nada a ver com o capital produtivo. O PSDB é a expressão de classe da universalização do capital monopolista, isto é, do imperialismo.
Funeral de Allende
A saga mal contada do Chile. Não se conhece nenhum protesto tucano contra a derrubada do presidente Salvador Allende. E esse silêncio, ou essa atitude impassível em relação ao socialismo chileno golpeado pela CIA, é revelador do tipo de “democracia” a que está afeiçoado o PSDB.
José Serra no Chile esteve mais próximo do ‘catolicão’ Eduardo Frei do que do comunista Salvador Allende, ao contrário do que sucedeu com Ruy Mauro Marini, Andre Gunder Frank e Darcy Ribeiro.
Eduardo Frei não só conspirou no golpe de Estado de 1973, como celebrou o regime de Pinochet, o qual contou com o Banco Mundial assessorado por Milton Friedman e os economistas Chicago Boys, que foram admirados e aplaudidos por Roberto Campos, o economista que se esforçou para privatizar a Petrobras e a Vale do Rio Doce.
O modelo econômico de Pinochet foi inspirado na ditadura brasileira de 1964 com os planos de “austeridade” ditados pelo FMI e Banco Mundial, privatizadores com corte de gastos estatais.
O que existe em comum entre Milton Friedman, FHC e José Serra? Estes no poder venderam as empresas estatais para o capital privado e, principalmente, para o capital estrangeiro.
Essa política neoliberal de desnacionalização, que direcionou tanto o regime fascista de Pinochet quanto a social democracia de FHC e Serra, baseia-se em três pilares: exportação, austeridade e superexploração do trabalho.
A Cepal de Raul Prebisch foi a antesala dos Chicago Boys de Milton Friedman, os quais ocuparam altos cargos executivos no regime fascista de Pinochet. A política econômica do general chileno foi de caráter neoliberal e privatizante tanto quanto a da “era vendida” de FHC e Serra. Isso significa que, para além da superficial análise políticóloga baseada na noção de “autoritarismo”, a repressão policial durante a “era vendida” não se fez necessária no Brasil para garantir o domínio neoliberal da burguesia financeiro-monopolista e sua acumulação de capital.
O genocídio econômico neoliberal no Chile estava, segundo Pinochet, justificado por uma “democracia autoritária”.
Panteão caipira
Se a ditadura de 64 seguiu o receituário tecnocrático de Roberto Campos, o repercurtor colonizado de Milton Friedman, o guru gringo de Pinochet, então a política privatizante do general chileno foi, por sua vez, radicalizada pelo príncipe da sociologia no Brasil, que recebeu o justo epíteto de “o rei das privatizações”, disputando esse qualificativo na América Latina com Menem na Argentina e Fujimori no Peru. É por causa desse condicionante econômico do capital monopolista que FHC e Serra nunca derramaram lágrima alguma para Salvador Allende assassinado pelos Chicago Boys, os quais iriam inspirar mais tarde a decisão tucana de privatizar a Vale do Rio Doce e vender as ações da Petrobrás.
FHC e Serra no poder iriam repetir e copiar Albert Hirschman, outro economista anti-marxista que não difere substancialmente de Walt Rostow bancado pela CIA, o assessor de Kennedy e Johnson que mandou jogar bomba nas cabeças dos vietnamitas.
A fúria neoliberal privatizante dos tucanos não foi de inspiração autóctone, ou o resultado de seu convívio com Ulisses Guimarães e Franco Montoro, o panteão caipira do largo São Francisco, incluindo o cowboy Orestes Quércia.
Como tudo o que acontece com eles, a diretriz é traçada invariavelmente do exterior e dos centros imperialistas. A compreensão dessa política entreguista do PSDB está em Andre Gunder Frank, sociólogo nascido em Berlim (1929) que deu aula na Universidade de Brasília convidado por Darcy Ribeiro, e que continua até hoje sendo o demônio das ciências sociais.
Gunder Frank, o autor de O Desenvolvimento do Subdesenvolvimento morreu em 2005, deixou uma notável obra teórica e histórica, que é o desmascaramento do neoliberalismo com a ideologia da globalização do capital monopolista.
O detalhe é que além de ter vivido no Chile na época de Salvador Allende, o marxista Gunder Frank, foi aluno de Milton Friedman na Universidade de Chicago na década de 50 e percebeu o caráter reacionário de seu mestre, rompeu com ele e com a Universidade de Chicago, e mais tarde no Chile, denunciou o crime contra o povo latinoamericano perpetuado por aquele figurão que ganhou o prêmio Nobel de economia, por ser o paradigma monetarista do vínculo entre a universidade e o banco, como é também o caso, repetido na periferia, do percurso de FHC e Serra, os quais concentraram o poder econômico e venderam o país, seguindo a terapia do “tratamento de choque”, a expressão de autoria de Milton Friedman, cuja política, como dizia Gunder Frank, aumentou o monopolismo capitalista no mundo, desde quando assessorou Barry Goldwater e orientou as medidas econômicas de Nixon.
Para América Latina exportou a bula, repercutida décadas depois pelos tucanos, sobre a “estabilização da economia”, que não é diferente do modelo de Roberto Campos.
Mercado livre e pau-de-arara
É preciso desconfiar da auto-propagada vocação dos tucanos à democracia. Roberto Campos também se dizia fã da democracia quando serviu à ditadura. Milton Friedman escreveu o livro Capitalismo e Liberdade e contribuiu para o assassinato de 30 mil pessoas no Chile, apelando para os princípios do “mercado livre” e do neoliberalismo. Por isso é preciso perguntar o seguinte: até onde vai o amor de José Serra pela democracia? O fascismo político de Pinochet se valeu do neoliberalismo na economia, o qual será retomado por FHC com eleições, seguindo o que receitava o guru Milton Friedman: o lucro é a essência da democracia. FHC sempre disputou as eleições por cima e em situação favorável, a moeda “real” foi a cédula eleitoral no bolso, dizia Leonel Brizola. Depois se reelegeu na maré das reeleições, o que não acontecerá com José Serra, que é uma espécie de primo pobre da tucanalha, desprovido das fortunas maquiavélicas que foram oferecidas para FHC na Casa Grande.
A dialética Casa Grande e Senzala funciona como um sintoma psicológico de um partido político repleto de egos vaidosos e sem carisma. FHC colocou a graça de seu carisma no dinheiro, na moeda, ficando conhecido como o “príncipe da moeda”.
Herança Vende-Pátria
Hoje, em situação mundial desfavorável provocada pela crise financeira do imperialismo (FHC esteve oito anos agenciando a globalização do capital estrangeiro), o PSDB com José Serra – representando os interesses da burguesia financeira e industrial de São Paulo – se prepara para voltar ao Palácio da Alvorada.
Há porém um problema neste teatro subshakesperiano. É que depois do estrago entreguista de FHC, os tucanos não têm discurso a apresentar, digamos, nenhuma esperança em cima da telenovela, da moeda e da estabilização da economia.
Ainda que não reconheça publicamente, José Serra gostaria de descartar-se da herança de seu progenitor, porque essa herança é um estorvo fatal para ele, impedido de falar que vai retomá-la e tirar-lhe a parte ruim.
Afinal, que “Brasil venceu” com oito anos de FHC? José Serra vive essa contradição em sua trajetória política, pois não poderá negar a paternidade que o gerou, embora esse DNA seja um obstáculo para palmilhar o caminho da Presidência da República.
É difícil para José Serra refutar que a era FHC, com a sua política de privatização internacional e agente da universalização do capital privado, foi um retrocesso nacional, que não fez senão prosperar os bancos e as corporações multinacionais.
Durante a “era vendida” de FHC, o PSDB foi o instrumento político do capital globalizado, que levou adiante as medidas entreguistas de 64, valendo-se do argumento da eficácia, da racionalidade e da competência na administração da vassalagem entreguista.
Baile de Manhattan
Analisado de olho na América Latina, o governo neoliberal de FHC –que José Serra estará compelido a defender agora com todos os constrangimentos – tomou como paradigma e aprofundou o que foi feito na economia pelos Chicago Boys no Chile do general Pinochet.
O neoliberalismo econômico de FHC, Menem e Fujimori começou com as ditaduras da década de 60. A retirada de todas as restrições ao capital estrangeiro, a liberalização dos mercados, a desregulação das empresas privadas, as prescrições sobre os “ajustes estruturais” fizeram parte do pacote macroeconômico chamado “estabilização” aplicado em escala mundial a mando do FMI e do Banco Mundial. Essa foi, na era privatizadora de FHC, a economia portifólio e especulativa, de acordo com o processo de acumulação de capital sob a égide da financeirização.
Quem fez a farra com o Plano Real foi, dentre outros bancos estrangeiros, o Chase Manhattan com os seus superlucros.
São os bancos e as grandes instituições financeiras que irão conceder o prêmio Honoris Causa para FHC, o “gênio das ciências sociais” enfiando (como dizia Leonel Brizola) os barretes em sua cabeça por várias universidades do Primeiro Mundo pelo serviço prestado, sobretudo na Inglaterra de Tony Blair, o afilhado de dona Tatcher e pupilo de Giddens, o comensal assíduo nos ágapes oferecidos por Rupert Murdoch, a patota Barclays Bank e British Airways.
A política econômica neoliberal foi um desastre para a América Latina, empobreceu muita gente e marginalizou amplos setores da população. José Serra irá corrigir os defeitos dessa política imperialista de FHC? É difícil imaginar o discurso do PSDB agora para o que defendeu e executou no poder durante oito anos, tendo sido o principal agente político da universalização do capital monopolista.
Culpa e Insônia
O travesseiro de José Serra está esquentado com a questão: o que dizer na campanha de 2010 acerca da herança daquele que foi o seu progenitor político? Agora, com a crise da financeirização política do capital monopolista, nem a direita da metrópole defende mais a “flexibilização do capitalismo”.
A insônia de José Serra tem razão de ser: cadê o Giddens? Cadê o Blair? Cadê a Tatcher? Cadê o Clinton?
O modelo terceira via-globalização-privatizante-neoliberal fracassou. A alternativa durante a campanha é retornar a Keynes e aos investimentos públicos? Será que isso surtirá algum efeito?
O problema é o peso da herança: FHC foi a transferência do patrimônio público para os interesses privados.
O PSDB não é social nem democrático. Quem faz o programa desse partido é a big finança, e esta não tem nada de democrática; ao contrário, o capitalismo monopolista é contra a democracia.
O interesse imperialista da metrópole é o que determina a concepção do PSDB.
Os gerentes e estamentos anglosaxônicos formularam as políticas da “terceira via” e da privatização, porém isso resultou num desastre completo.
O que foi outrora tido como gênio, Tony Giddens, citado impreterivelmente na bibliografia dos cursos da pós-graduação em ciências sociais, virou um badameco da burguesia pirata de Londres.
Segundo o sibarita Giddens, acabou a luta de classes entre burguesia e proletariado, o vínculo entre nação opressora e nação oprimida foi dissolvido, dissipou a contradição capitalismo versus socialismo, assim a filantropia das ONGs é o que resolve a penúria; enfim, essa “terceira via” neoliberal privatizadora aumentou o abismo entre pobres e ricos.
O PSDB é um partido político colonizado e mimético, sua formatação origina-se dos centros financeiros do capitalismo, seu internacionalismo, ou melhor, seu cosmopolitismo é burguês, portanto não há abracadabra possível que faça José Serra pousar de nacionalista e defensor das riquezas naturais do país; afinal ele foi o fautor e companheiro de viagem do funeral feagaceano da era Vargas. Então, sem que se reduza a política à psicanálise, é preciso reconhecer que um espectro ronda o arraial tucano: o do parricídio. É a matança (simbólica, claro) do pai FHC pelo filho José Serra, se este quiser se despregar da “era vendida”, pelo menos durante a campanha eleitoral de 2010. Se não for seguido este caminho, não restará outra alternativa senão a afasia que o levará à autoimolação política.
Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor
Por Gilberto Felisberto Vasconcellos
O que significa, do ponto de vista político e psicológico, o personagem José Serra no cenário da direita no Brasil e na América Latina?
Foi líder estudantil da UNE, o que não quer dizer talento retórico nem capacidade intelectual; todavia se no passado porventura possuía algum charme persuasivo, atualmente não lhe sobrou nada, e isso está relacionado com a sua progressiva direitização depois do Chile, ou talvez até antes.
Serra em Santiago foi uma espécie de garçom ou mordomo de FHC, a quem deverá o futuro ingresso nas altas rodas banqueiras em São Paulo, tendo apoio da missa católica de Franco Montoro para fazer-se deputado.
Do Chile, José Serra vem carimbado de “marxista”, fazendo marola que estava na trincheira do marxismo, quando na verdade sua quitanda era a Cepal burguesa e desenvolvimentista, sob a direção de Raul Prebish, economista ponta de lança do imperialismo inglês na Argentina, odiado por peronistas, nacionalistas e trotskistas.
Não há contribuição alguma de José Serra à teoria econômica na América Latina. Isso foi dito em 1978 por Ruy Mauro Marini, artigo publicado na Revista de Sociologia Mexicana. José Serra, sem o menor escrúpulo intelectual, censurou o artigo de Ruy Mauro Marini no Cebrap. Neste artigo, aparecia como ele é hoje: um homem que se ufana da burguesia industrial e financeira paulista, um tecnocrata operador do capital monopolista internacional.
Ruy Mauro Marini antecipou o balé financeiro multinacional de José Serra, origem pobre, mas fascinado pelo Banco e pelo poder do dinheiro fazer dinheiro, que não tem nada a ver com o capital produtivo. O PSDB é a expressão de classe da universalização do capital monopolista, isto é, do imperialismo.
Funeral de Allende
A saga mal contada do Chile. Não se conhece nenhum protesto tucano contra a derrubada do presidente Salvador Allende. E esse silêncio, ou essa atitude impassível em relação ao socialismo chileno golpeado pela CIA, é revelador do tipo de “democracia” a que está afeiçoado o PSDB.
José Serra no Chile esteve mais próximo do ‘catolicão’ Eduardo Frei do que do comunista Salvador Allende, ao contrário do que sucedeu com Ruy Mauro Marini, Andre Gunder Frank e Darcy Ribeiro.
Eduardo Frei não só conspirou no golpe de Estado de 1973, como celebrou o regime de Pinochet, o qual contou com o Banco Mundial assessorado por Milton Friedman e os economistas Chicago Boys, que foram admirados e aplaudidos por Roberto Campos, o economista que se esforçou para privatizar a Petrobras e a Vale do Rio Doce.
O modelo econômico de Pinochet foi inspirado na ditadura brasileira de 1964 com os planos de “austeridade” ditados pelo FMI e Banco Mundial, privatizadores com corte de gastos estatais.
O que existe em comum entre Milton Friedman, FHC e José Serra? Estes no poder venderam as empresas estatais para o capital privado e, principalmente, para o capital estrangeiro.
Essa política neoliberal de desnacionalização, que direcionou tanto o regime fascista de Pinochet quanto a social democracia de FHC e Serra, baseia-se em três pilares: exportação, austeridade e superexploração do trabalho.
A Cepal de Raul Prebisch foi a antesala dos Chicago Boys de Milton Friedman, os quais ocuparam altos cargos executivos no regime fascista de Pinochet. A política econômica do general chileno foi de caráter neoliberal e privatizante tanto quanto a da “era vendida” de FHC e Serra. Isso significa que, para além da superficial análise políticóloga baseada na noção de “autoritarismo”, a repressão policial durante a “era vendida” não se fez necessária no Brasil para garantir o domínio neoliberal da burguesia financeiro-monopolista e sua acumulação de capital.
O genocídio econômico neoliberal no Chile estava, segundo Pinochet, justificado por uma “democracia autoritária”.
Panteão caipira
Se a ditadura de 64 seguiu o receituário tecnocrático de Roberto Campos, o repercurtor colonizado de Milton Friedman, o guru gringo de Pinochet, então a política privatizante do general chileno foi, por sua vez, radicalizada pelo príncipe da sociologia no Brasil, que recebeu o justo epíteto de “o rei das privatizações”, disputando esse qualificativo na América Latina com Menem na Argentina e Fujimori no Peru. É por causa desse condicionante econômico do capital monopolista que FHC e Serra nunca derramaram lágrima alguma para Salvador Allende assassinado pelos Chicago Boys, os quais iriam inspirar mais tarde a decisão tucana de privatizar a Vale do Rio Doce e vender as ações da Petrobrás.
FHC e Serra no poder iriam repetir e copiar Albert Hirschman, outro economista anti-marxista que não difere substancialmente de Walt Rostow bancado pela CIA, o assessor de Kennedy e Johnson que mandou jogar bomba nas cabeças dos vietnamitas.
A fúria neoliberal privatizante dos tucanos não foi de inspiração autóctone, ou o resultado de seu convívio com Ulisses Guimarães e Franco Montoro, o panteão caipira do largo São Francisco, incluindo o cowboy Orestes Quércia.
Como tudo o que acontece com eles, a diretriz é traçada invariavelmente do exterior e dos centros imperialistas. A compreensão dessa política entreguista do PSDB está em Andre Gunder Frank, sociólogo nascido em Berlim (1929) que deu aula na Universidade de Brasília convidado por Darcy Ribeiro, e que continua até hoje sendo o demônio das ciências sociais.
Gunder Frank, o autor de O Desenvolvimento do Subdesenvolvimento morreu em 2005, deixou uma notável obra teórica e histórica, que é o desmascaramento do neoliberalismo com a ideologia da globalização do capital monopolista.
O detalhe é que além de ter vivido no Chile na época de Salvador Allende, o marxista Gunder Frank, foi aluno de Milton Friedman na Universidade de Chicago na década de 50 e percebeu o caráter reacionário de seu mestre, rompeu com ele e com a Universidade de Chicago, e mais tarde no Chile, denunciou o crime contra o povo latinoamericano perpetuado por aquele figurão que ganhou o prêmio Nobel de economia, por ser o paradigma monetarista do vínculo entre a universidade e o banco, como é também o caso, repetido na periferia, do percurso de FHC e Serra, os quais concentraram o poder econômico e venderam o país, seguindo a terapia do “tratamento de choque”, a expressão de autoria de Milton Friedman, cuja política, como dizia Gunder Frank, aumentou o monopolismo capitalista no mundo, desde quando assessorou Barry Goldwater e orientou as medidas econômicas de Nixon.
Para América Latina exportou a bula, repercutida décadas depois pelos tucanos, sobre a “estabilização da economia”, que não é diferente do modelo de Roberto Campos.
Mercado livre e pau-de-arara
É preciso desconfiar da auto-propagada vocação dos tucanos à democracia. Roberto Campos também se dizia fã da democracia quando serviu à ditadura. Milton Friedman escreveu o livro Capitalismo e Liberdade e contribuiu para o assassinato de 30 mil pessoas no Chile, apelando para os princípios do “mercado livre” e do neoliberalismo. Por isso é preciso perguntar o seguinte: até onde vai o amor de José Serra pela democracia? O fascismo político de Pinochet se valeu do neoliberalismo na economia, o qual será retomado por FHC com eleições, seguindo o que receitava o guru Milton Friedman: o lucro é a essência da democracia. FHC sempre disputou as eleições por cima e em situação favorável, a moeda “real” foi a cédula eleitoral no bolso, dizia Leonel Brizola. Depois se reelegeu na maré das reeleições, o que não acontecerá com José Serra, que é uma espécie de primo pobre da tucanalha, desprovido das fortunas maquiavélicas que foram oferecidas para FHC na Casa Grande.
A dialética Casa Grande e Senzala funciona como um sintoma psicológico de um partido político repleto de egos vaidosos e sem carisma. FHC colocou a graça de seu carisma no dinheiro, na moeda, ficando conhecido como o “príncipe da moeda”.
Herança Vende-Pátria
Hoje, em situação mundial desfavorável provocada pela crise financeira do imperialismo (FHC esteve oito anos agenciando a globalização do capital estrangeiro), o PSDB com José Serra – representando os interesses da burguesia financeira e industrial de São Paulo – se prepara para voltar ao Palácio da Alvorada.
Há porém um problema neste teatro subshakesperiano. É que depois do estrago entreguista de FHC, os tucanos não têm discurso a apresentar, digamos, nenhuma esperança em cima da telenovela, da moeda e da estabilização da economia.
Ainda que não reconheça publicamente, José Serra gostaria de descartar-se da herança de seu progenitor, porque essa herança é um estorvo fatal para ele, impedido de falar que vai retomá-la e tirar-lhe a parte ruim.
Afinal, que “Brasil venceu” com oito anos de FHC? José Serra vive essa contradição em sua trajetória política, pois não poderá negar a paternidade que o gerou, embora esse DNA seja um obstáculo para palmilhar o caminho da Presidência da República.
É difícil para José Serra refutar que a era FHC, com a sua política de privatização internacional e agente da universalização do capital privado, foi um retrocesso nacional, que não fez senão prosperar os bancos e as corporações multinacionais.
Durante a “era vendida” de FHC, o PSDB foi o instrumento político do capital globalizado, que levou adiante as medidas entreguistas de 64, valendo-se do argumento da eficácia, da racionalidade e da competência na administração da vassalagem entreguista.
Baile de Manhattan
Analisado de olho na América Latina, o governo neoliberal de FHC –que José Serra estará compelido a defender agora com todos os constrangimentos – tomou como paradigma e aprofundou o que foi feito na economia pelos Chicago Boys no Chile do general Pinochet.
O neoliberalismo econômico de FHC, Menem e Fujimori começou com as ditaduras da década de 60. A retirada de todas as restrições ao capital estrangeiro, a liberalização dos mercados, a desregulação das empresas privadas, as prescrições sobre os “ajustes estruturais” fizeram parte do pacote macroeconômico chamado “estabilização” aplicado em escala mundial a mando do FMI e do Banco Mundial. Essa foi, na era privatizadora de FHC, a economia portifólio e especulativa, de acordo com o processo de acumulação de capital sob a égide da financeirização.
Quem fez a farra com o Plano Real foi, dentre outros bancos estrangeiros, o Chase Manhattan com os seus superlucros.
São os bancos e as grandes instituições financeiras que irão conceder o prêmio Honoris Causa para FHC, o “gênio das ciências sociais” enfiando (como dizia Leonel Brizola) os barretes em sua cabeça por várias universidades do Primeiro Mundo pelo serviço prestado, sobretudo na Inglaterra de Tony Blair, o afilhado de dona Tatcher e pupilo de Giddens, o comensal assíduo nos ágapes oferecidos por Rupert Murdoch, a patota Barclays Bank e British Airways.
A política econômica neoliberal foi um desastre para a América Latina, empobreceu muita gente e marginalizou amplos setores da população. José Serra irá corrigir os defeitos dessa política imperialista de FHC? É difícil imaginar o discurso do PSDB agora para o que defendeu e executou no poder durante oito anos, tendo sido o principal agente político da universalização do capital monopolista.
Culpa e Insônia
O travesseiro de José Serra está esquentado com a questão: o que dizer na campanha de 2010 acerca da herança daquele que foi o seu progenitor político? Agora, com a crise da financeirização política do capital monopolista, nem a direita da metrópole defende mais a “flexibilização do capitalismo”.
A insônia de José Serra tem razão de ser: cadê o Giddens? Cadê o Blair? Cadê a Tatcher? Cadê o Clinton?
O modelo terceira via-globalização-privatizante-neoliberal fracassou. A alternativa durante a campanha é retornar a Keynes e aos investimentos públicos? Será que isso surtirá algum efeito?
O problema é o peso da herança: FHC foi a transferência do patrimônio público para os interesses privados.
O PSDB não é social nem democrático. Quem faz o programa desse partido é a big finança, e esta não tem nada de democrática; ao contrário, o capitalismo monopolista é contra a democracia.
O interesse imperialista da metrópole é o que determina a concepção do PSDB.
Os gerentes e estamentos anglosaxônicos formularam as políticas da “terceira via” e da privatização, porém isso resultou num desastre completo.
O que foi outrora tido como gênio, Tony Giddens, citado impreterivelmente na bibliografia dos cursos da pós-graduação em ciências sociais, virou um badameco da burguesia pirata de Londres.
Segundo o sibarita Giddens, acabou a luta de classes entre burguesia e proletariado, o vínculo entre nação opressora e nação oprimida foi dissolvido, dissipou a contradição capitalismo versus socialismo, assim a filantropia das ONGs é o que resolve a penúria; enfim, essa “terceira via” neoliberal privatizadora aumentou o abismo entre pobres e ricos.
O PSDB é um partido político colonizado e mimético, sua formatação origina-se dos centros financeiros do capitalismo, seu internacionalismo, ou melhor, seu cosmopolitismo é burguês, portanto não há abracadabra possível que faça José Serra pousar de nacionalista e defensor das riquezas naturais do país; afinal ele foi o fautor e companheiro de viagem do funeral feagaceano da era Vargas. Então, sem que se reduza a política à psicanálise, é preciso reconhecer que um espectro ronda o arraial tucano: o do parricídio. É a matança (simbólica, claro) do pai FHC pelo filho José Serra, se este quiser se despregar da “era vendida”, pelo menos durante a campanha eleitoral de 2010. Se não for seguido este caminho, não restará outra alternativa senão a afasia que o levará à autoimolação política.
Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor
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