quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O bem-te-vi



Sonia Nascimento

Quando vim para Antonina, meus sobrinhos postiços costumavam passar o verão em nossa casa. Eron e Tamiris eram os mais frequentes. Brincavam muito com Daniel, que morava conosco e esperava pelas férias para ficar com os primos também postiços. Num verão muito especial, um filhote de bem-te-vi caiu do ninho e as crianças se encheram de cuidados e carinhos com o bebezinho horroroso, um bichinho que parecia um frango depenado em miniatura pronto a ser assado. Tinha um bico sempre aberto e barulhento, que as crianças enchiam de farelo de pão e de água com um conta-gotas. O ninho improvisado numa caixa de charutos do tio Paulo foi forrado de algodão, de guardanapo de papel, de tecidos em tiras, para imitar o carinho da mãe passarinha. Colocamos esse ninho numa mesa de concreto que ficava embaixo da árvore de onde caíra o rebento, com a esperança de que os seus pais legítimos viessem cuidar dele. As crianças cuidavam muito bem do bichinho e, para meu espanto, os pais passarinhos também. Quando não havia ninguém por perto (as crianças se escondiam), os bem-te-vis adultos alimentavam seu filhote no ninho improvisado.  E assim, aquela coisinha feia foi se transformando numa bolinha emplumada, e ficou pronto para os exercícios de voo, o que me deixava louca de medo de ver o bichinho virar comida dos cachorros de casa, que viviam curiosos para conhecer o habitante daquela caixa de charutos. Volta e meia achávamos o filhote caído fora da mesa e do ninho, mas os cachorros, milagrosamente, pareciam não enxergá-lo. Esse bem-te-vi, um dia, sumiu do ninho. Chorei abraçada às crianças, julgando que a Brenda ou o Chico tivessem feito, finalmente, uma refeição do bichinho. Qual nada, ele cantou um canto bem desajeitado, na árvore de onde caíra. Estava salvo e pronto pra alçar voos. Foi-se embora quando acabou o verão, mas um casal de bem-te-vi sempre volta pra minha casa em agosto, para fazer ninho e comer a ração dos cachorros, que já não são os mesmos de outrora. Nem as crianças voltaram mais para os verões cheios de algazarra e descobertas. Foram para o mundo, para seus caminhos e solidões.  

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Natal e sua verdadeira história (do Ceticismo.net)


Origens Pagãs
mitra.jpgQuando buscamos a verdadeira história do Natal, acabamos diante de rituais e deuses pagãos. Sabemos que Jesus Cristo foi colocado numa festa que nada tinha haver com Ele. O verdadeiro simbolismo de Natal oculta transcendentes mistérios. Esta festividade tem sua origem fixada no paganismo. Era um dia consagrado à celebração do “Sol Invicto”. O Sol tem sua representação no deus greco-romano Apolo e, seus equivalentes entre outros povos pagãos são diversos: Ra, o deus egípcio, Utudos na Babilônia, Surya da Índia e também Baal e Mitra.
Mitra era muito apreciado pelos romanos, seus rituais eram apenas homens que participavam. Era uma religião de iniciação secreta, semelhante aos existes na Maçonaria. Aureliano (227-275 d.C), Imperador da Roma, estabeleceu no ano de 273 d.C., o dia do nascimento do Sol em 25 de dezembro “Natalis Solis Invcti”, que significava o nascimento do Sol invencível. Todo O Império passou a comemorar neste dia o nascimento de Mitra-Menino, Deus Indo-Persa da Luz, que também foi visitado por magos que lhe ofertaram mirra, incenso e ouro. Era também nesta noite o início do Solstício de Inverno, segundo o Calendário Juliano, que seguia a “Saturnalia” (17 a 24 de dezembro), festa em homenagem à Saturno. Era portanto, solenizado o dia mais curto do ano no Hemisfério Norte e o nascimento de um Novo Sol. Este fenômeno astronômico é exatamente o oposto em nosso Hemisfério Sul.
Estas festividades pagãs estavam muito arraigadas nos costumes populares desde os tempos imemoráveis para serem suprimidas com a advento do Cristianismo, incluso como religião oficial por Decreto por Constantino (317-337 d.C), então Imperador de Roma. Como antigo adorador do Sol, sua influência foi configurada quando ele fez do dia 25 de dezembro uma Festa Cristã. Ele transformou as celebrações de homenagens à Mitra, Baal, Apolo e outros deuses, na festa de nascimento de Jesus Cristo. Uma forma de sincretismo religioso. Assim, rituais, crenças, costumes e mitos pagãos passam a ser patrimônio da “Nova Fé”, convertendo-se deuses locais em santos, virgens em anjos e transformando ancestrais santuários em Igrejas de culto cristão. Deve-se levar em consideração que o universo romano foi educado com os costumes pagãos, portanto não poderia ocorrer nada diferente.
Todavia, o povo cristão do Oriente, adaptou esta celebração para 6 de janeiro, possivelmente por uma reminiscência pagã também, pois esta é a data da aparição de Osíris entre os egípcios e de Dionísio entre os gregos.
Jesus, o “Filho do Sol”
filhodosol.jpgNo quociente Mitraísmo/Cristianismo se observa surpreendentes analogias. Mitra era o mediador entre Deus e os homens. Assegurava salvação mediante sacrifício. Seu culto compreendia batismo, comunhão e sacerdotes. A Igreja Católica Romana, simplesmente “paganizou” Jesus. Modificou-se somente o significado, mantendo-se idêntico o culto. Cristo, substituiu Mitra, o “Filho do Sol”, constituindo assim um “Mito” solar equivalente, circundado por 12 Apóstolos. Aliás, curiosa e sugestivamente, 12 (n. de apóstolos), coincide com o número de constelações. Complementando as analogias astronômicas: a estrela de Belém seria a conjunção de Júpiter com Saturno na constelação do ano 7 a.C, com aparência de uma grande estrela.
Nova Ordem
Uma nova ordem foi estabelecida quando o decreto de Constantino oficializa o Cristianismo. Logo, livres de toda opressão, os que então eram perseguidos se convertem em perseguidores. Todos os pagãos que se atrevessem a se opor as doutrinas da Igreja Oficial eram tidos como hereges e dignos de severo castigo.
Culto às “Mães Virgens”
No Antigo Egito, sempre existiu a crença de que o filho de Ísis (Rainha dos Céus), nasceu precisamente em 25 de dezembro. Ísis algumas vezes é “Mãe”, outras vezes é “Virgem” que é fecundada de maneira sobrenatural e engravida do “Deus Filho”.
Tal culto à “Virgem” é encontrado entre os Celtas, cujo a civilização, os druídas (sacerdotes), praticam o culto baseado em um “Deus Único”, “Una Trindade”, a ressurreição, a imortalidade da alma e uma divindade feminina: uma “Deusa-Mãe”, uma “Terra-Mãe” e uma “Deusa Terra” também virgem, que se destinava a dar à luz a um “Filho de Deus”.
Este culto as “Deusas Virgens-Mães” está reiterado em muitas religiões e mitologias, inclusive civilizações pré-colombianas, como em numerosas mitologias africanas e em todas as seitas iniciáticas orientais.
A reconfortante imagem do arquétipo “MÃE” é primordial para existência humana. Este arquétipo pode assumir diversas formas: deusas, uma mãe gentil, uma avó ou uma igreja. Associadas a essas imagens surgem a solicitude e simpatia maternas, o crescimento, a nutrição e a fertilidade.
Culto ao “Deus-Herói”
deusheroi.jpgComo afirmei, a concepção de uma “Rainha dos Céus” que dá à luz a um “Menino-Deus” e “Salvador” corresponde a um arquétipo básico do psiquismo humano e tem sua origem nos fenômenos astronômicos. Enviado por um “Ser Supremo”, que é o PAI, o FILHO assume suprimindo o PAI, como acontece em todas as sagas gregas, indo-européias e diversas culturas. Coincidentemente, existe um padrão constante que quase sempre expressa o mesmo propósito: fazer do FILHO um HERÓI, que cumpre o mandato do PAI, sucedendo-o. Este HERÓI se faz causa de um ideal primeiro que se move ao longo da História como MODELADOR de uma cultura.
A versão do nascimento e infância de Jesus é uma repetição da história de muitos outros Salvadores e Deuses da humanidade. Ilustra bem a figura do “Arquétipo Herói”, comuns em qualquer cultura e que seguem sempre a mesma fórmula. Nascidos em circunstâncias misteriosas, logo exibe força ou capacidade de super-homem, triunfa na luta contra o mal e, quase sempre, morre algum tempo depois.
Este arquétipo reflete o tipo de amadurecimento sugerido pelos mitos: nos alerta para ficarmos atentos as nossas forças e fraquezas internas e nos aponta o conhecimento como caminho para se desenvolver uma personalidade saudável.
“Anexo a nossa consciência imediata”, escreveu Carl Jung, “existe um segundo sistema psíquico de natureza coletiva, universal e impessoal, que se revela idêntico em todos os indivíduos”. Povoando este inconsciente coletivo, afirmava, havia o que chamava de “arquétipos”, imagens primordiais ou símbolos, impressos na psique desde o começo dos tempos e, a partir de então, transmitidos à humanidade inteira. A MÃE, o PAI e o HERÓI com seus temas associados, são exemplos de tais arquétipos, representados em mitos, histórias e sonhos.
Eis que nasce Papai Noel
saonicolau.jpgCom o passar do tempo, de gerações que foram sucedendo-se, veio o esquecimento e nem Mitra, nem Apolo ou Baal faziam mais parte do panteão de algum povo. Acabou restando somente símbolos: a árvore, a guirlanda, as velas, os sinos e os enfeites. Até que no séc. IV, mais exatamente no ano de 371, uma nova estrela brilha em nosso céu e na Terra nasce Nicolau de Bari ou Nicolau de Mira. A generosidade a ele atribuída granjeou-lhe s reputação de mágico milagreiro e distribuidor de presentes. Filho de família abastada, doou seus bens para os pobres e desamparados. Entretanto, tecia um grande amor pelas crianças e foi através delas que sua lenda se popularizou e que Nicolau acabou canonizado no coração de todas as pessoas.
No fim da Idade Média, ainda “espiritualmente vivo”, sua história alcançou os colonos holandeses da América do Norte onde o “bom velhinho” toma o nome de “Santa Claus”. Ao atravessar os Portais do Admirável Mundo, muito sobre o que ele foi escrito lhe rendeu vários apelidos, como: “Sanct Merr Cholas”, “Sinter Claes” ou “Sint Nocoloses”, e é considerado sempre como padroeiro das crianças.
O Papai Noel Ocidental
Até aproximadamente 65 anos atrás o Papai Noel era, literalmente, uma figura de muitas dimensões. Na pintura de vários artistas ele era caracterizado ora como um “elfo”, ora como um “duende”. O Noel-gnomo era gorducho e alegre, além de ter cabelos e barbas brancas.
papainoel.jpgNo final do século XIX, Papai Noel já era capa de revistas, livros e jornais, aparecendo em propagandas do mundo todo. Cartões de Natal o retrataram vestido de vermelho, talvez para acentuar o “espírito de natal”. A partir daí o personagem Papai Noel foi adquirindo várias nuances até que em 1931 a The Coca-Cola Company, contrata um artista e transforma Papai Noel numa figura totalmente humana e universalizada. Sua imagem foi definitivamente adotada como o principal símbolo do Natal.
A imagem do Noel continuou evoluindo com o passar dos anos e muitos países contribuíram para sua aparência atual. O trenó e as renas acredita-se que sejam originárias da Escandinávia. Outros países de clima frio adicionaram as peles e modificaram sua vestimenta e atribuíram seu endereço como sendo o Pólo Norte. A imagem da chaminé por onde o Papai Noel escorrega para deixar os presentes vieram da Holanda.
Hoje, com bem mais de 1700 anos de idade, continua mais vivo e presente do que nunca. Alcançou a passarela da fama e as telas da tecnologia. Hoje o vemos em filmes, shoppings, cinemas, no estacionamento e na rua. Ao longo desses dezessete séculos de existência, mudou várias vezes de nome, trocou inúmeras de roupa, de idioma e hábitos, mas permaneceu sempre a mesma pessoa caridosa e devotada às suas crianças. E, embora diversas vezes acusado de representar um veículo que deu origem ao crescente consumismo das Festas Natalinas, é preciso reconhecer que ele encerra valores que despertam, revivem e fortalecem os nossos sentimentos mais profundos. Sua bondade é tão contagiante que atinge tipo “flecha de cupido”, qualquer pessoa, independente de crença ou raça, o que evidencia a sua magia e seu grande poder de penetração no mundo.
Espero que todos tenham um feliz dia de Mitra!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O CORVO


      *
      (de Edgar Allan Poe)

    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
    É só isto, e nada mais."

    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!

    Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais".

    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
    Isso só e nada mais.

    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
    "É o vento, e nada mais."

    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
    Foi, pousou, e nada mais.

    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
    Com o nome "Nunca mais".

    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
    Era este "Nunca mais".

    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
    Com aquele "Nunca mais".

    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
    Reclinar-se-á nunca mais!

    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
    Disse o corvo, "Nunca mais".

    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á... nunca mais!
    Tradução: Fernando Pessoa

Um ano daqueles!

     Cada vez mais fico admirada da qualidade dos últimos anos. Digo qualidade no sentido de que não são mais como os anteriores, quando a gente dizia: "Nossa, voou!" O ano passado não voou, foi aquele da tragédia no litoral, quando a natureza se sacudiu e jogou no chão  suas árvores, suas pedras e as casas construídas na montanha. E daí, as pessoas perderam suas casas e aguardam, desde então, as casas que deveriam ser entregues "no menor prazo possível", construídas com recursos já liberados pelo governo federal e que o o senhor governador do estado do Paraná não repassa para as prefeituras. 

    Este ano foi outro ano que não voou. Foi intenso, ano de eleições, quando partidos e candidatos se engalfinharam para a conquista da prefeitura de uma cidade falida. Eu quero acreditar que a intenção dessa disputa acirrada foi causada pela vontade de mudar a face do município. Moro aqui faz agora 18 anos. Nunca vi uma eleição tão disputada. Participei dela para tentar eleger os candidatos do meu partido, coisa que não conseguimos, por muitos motivos, que não dá para falar agora, porque não dá pra resumir a situação política de Antonina. 

     Mas o que me deixa certa da intensidade dessas últimos anos é outro fenômeno, maior que o  da natureza. Trata-se da Internet e da transformação das relações humanas. Vivi tanto tempo nesta cidade sem conhecer muita gente, isolada pelos afazeres domésticos, a família e as viagens para ver meus filhos,  netos e amigos espalhados pelo Brasil. De repente, a Internet. Parece título de filme e daria um filme bom. Por meio dela conheci pessoas do mundo todo e até de Antonina. Conhecemos a Lia e o Luiz Henrique pela Internet. Conheci os companheiros do partido compartilhando com eles e eles comigo as notícias de nosso interesse. Conheci os preconceitos, a solidariedade, as rivalidades, o romantismo, a religiosidade e a falta dela, campanhas para o bem e para o mal. As fotos de família, as fotos da natureza (lindas fotos do Eduardo Nascimento, da Carolina Bee e do Marcos Maranhão).  Descobri patifarias e conluios. Consegui(mos) um diálogo do nosso bairro (Batel) com a prefeitura da cidade. Eu, que ninguém nunca tinha visto e nem sabiam da existência, passei a trocar caneladas com anônimos do blog do Luiz. Fui tachada de isso e aquilo. E também tachei este ou aquele de coisas. Uma vida impensável nos anos noventa e até no início deste novo século. O ritmo de vida da cidade, antes calmo e madorrento, agora é de grandes vendavais de paixões, com direito a amizades desfeitas, muito choro, padres e pastores a dizer coisas que nunca antes diriam. Boatos e verdades sendo distribuídos grátis em casa, não pelo teletipo nem por cartas anônimas, mas pelo celular e pela tela do computador. As fotos de perfil, devidamente retocadas pelo fabuloso Fotoshop, permitem que a gente tenha uma idade etérea, indefinida. 

    Antonina pós Internet é interessante e viva. Mas também pode ser uma faca no peito. Foram dois anos intensos. Não voaram e, pela primeira vez, posso dizer a todos como passamos este ano. Pena que a maioria das pessoas não esteja interessada, afinal isso já é passado.

domingo, 4 de novembro de 2012

Ficar velh@

A gente vem pela vida, desde criança, aprendendo e desaprendendo, apegando-se e abandonando coisas e pessoas, com um sentimento de eternidade, como se a vida estivesse ali para te servir, por séculos. Mesmo quando atingimos aquela idade em que as pessoas passam espontaneamente a nos chamar de senhor@s (no princípio é um choque), creditamos à boa educação que alguns pais ainda dão aos seus rebentos. Fazemos de tudo para permanecer  "pertencendo": dietas e plásticas, ginásticas e yôga, estudamos a história da arte e uma nova língua, mudamos de parceir@s e até prestamos vestibular e nos enfiamos no ambiente acadêmico para dar nossos pitacos e contar a história como ela realmente se passou. Nossas idéias, principalmente gente como eu, de esquerda, precisam ser defendidas com sangue, suor e lágrimas, para que nossos ídolos sejam preservados e cultuados. E participamos dos movimentos sociais e dos grandes acontecimentos do país e do mundo, virtual e real. Minha geração não deixa a peteca cair, um ditado da época do Getúlio, que a gente cita como se o tempo não tivesse passado. Então, um dia, você se abaixa para pegar um(a) neto(a) e não consegue mais se levantar. Fica feito uma múmia engessada por dias e às vezes meses. Foi só um mau jeito, você se convence, e volta a agitar suas bandeiras, até que percebe que existem furos na sua memória.Não sabe o que já fez, teima com outras pessoas porque "eu não disse isso". Não fui eu quem colocou o telefone na geladeira. Não fui eu quem queimou o feijão, o arroz, pôs fogo na casa de madeira. E alguém comenta que você está fazendo muita confusão, anda muito brav@, perde as estribeiras e desacata o gerente do banco. Que "se você não tivesse se oferecido para..." teria sido melhor, alguém faria direito aquela coisa e não teria dado tanto trabalho". Você chora, cai das nuvens, esperneia, porque o teu sentimento de eternidade está sendo posto em cheque. Afinal você decide encarar um espelho, coisa que não faz há alguns anos, e percebe as bochechas flácidas e o belo sorriso amarelado pelo tempo.O cabelo branco tingido teimando em se despentear, como uma Ofélia enlouquecida. A crueldade das crianças e jovens, a impaciência dos filhos e filhas, genros e noras, diante da surdez progressiva a (ou o) faz ter pena de si e julgar-se enfim uma coisa prestes a se extinguir. Mas o que fazer com o sentimento de eternidade, você que tem vários deuses e não acredita em nenhum deles? dentro de você aquela menina tímida, metida, topetuda, escritora de histórias inverossímeis e leitora ávida de tudo que lhe caiu às mãos ainda se agita. Não quer dizer adeus. Continua a se abaixar para cavar a terra com uma pazinha de brinquedo para plantar suas sementes em solo nem sempre fértil. Chora nos cantos e finge que não chorou quando lhe indagam da cor dos olhos, você que nunca fumou maconha e em quem ninguém acredita mais. Restam as aquarelas e os contos, ou qualquer coisa só sua,  coisas que você não mudou durante toda a sua vida, que @ definem para você mesm@. Porque a vida é assim mesmo, pra todo mundo.

Madame Bovary

  A Velhice II      Quero falar das dores da velhice. Não aquela dor que vemos quando temos coragem de encarar o espelho e aquela mulher (ho...