quarta-feira, 28 de março de 2012

domingo, 18 de março de 2012

Oportunismo Confesso

Como está na moda falar do inominável, resolvi republicar  (não de república, mas de republicação,antes que o rapazinho dos porquês interfira) um conto meu, inspirado em uma cidade imaginária, num reino muito distante e escrito há vários anos anos. Aliás,  e como a maioria dos outros contos que fiz, continua inédito no bom papel. 


VADE RETRO

            As pedras das ruas são lisas, pretas e escorregadias, denunciando a idade da cidade. Uma cidadezinha muito velha, de calçadas estreitas e janelas que dão para a rua, facilitando a comunicação entre os passantes e os moradores das casas e, naturalmente, a bisbilhotice.
Dona Maricotinha viu sua vida passar olhando pela janela da casa. Casou-se duas vezes, da primeira teve um par de filhos que agora moram na capital. Do segundo casamento, teve mais cinco, esses sim, todos ao seu redor, obedientes e tão novidadeiros quanto ela. Pois dona Maricotinha é quem sabe mais de todo mundo na cidade, sempre de doces sorrisos de avó, além dos próprios doces que vende pela janela o dia todo, enquanto colhe as notícias para passá-las adiante. Uma fofoqueira, como é conhecida pela maior parte dos habitantes.
Pois foi esse seu dom que livrou a cidade de uma grande calamidade. Contam à boca pequena, que ninguém pode mesmo saber se há fundamento, que chegou para morar na casa antiga do alto do morro um certo figurão, de cuja riqueza ninguém sabia a origem, mas de fama tal que despertou o interesse da alta sociedade da cidade. Essa alta sociedade se compunha de dois ou três causídicos, o juiz, o prefeito, uns tantos médicos, o delegado, o dono do cinema, do supermercado e das duas farmácias. E ainda suas respectivas filhas e mulheres, que imediatamente o classificaram de bom partido.
Pois então, quando esse homem aportou em Santa Maria do Pilar, com seu lindo iate branco cheio de convidados bronzeados tomadores de champanhe, foi um frisson. Veio gente dos matos para ver e também a banda, que foi convidada a tocar no cais do porto, enquanto os passageiros do iate olhavam divertidos a população em suas melhores roupas,  abanando lenços para eles. Nesse dia foi oferecido pelo prefeito um lauto jantar no Iate Clube de Santa Maria do Pilar, aberto somente aos sócios e aos novos habitantes e passageiros do barco. Foi uma farra com o dinheiro público, dizia dona Maricotinha aos seus clientes, enquanto virava os olhinhos de pardal.
Desde o início se tomou de grande antipatia pelo novo morador. Não sabia a origem de seu desassossego, mas o instinto lhe dizia que boa coisa ele não era.
As moças virgens e casadoiras, filhas dos ricos da cidade, prestavam homenagens ao galante e ilustre morador, mas ninguém podia se aproximar de sua casa. Convidados dele eram recebidos no Iate Clube, onde o presidente lhe garantia uma conta sem tamanho de gastos com lagostas e ostras finas, acompanhadas do vinho importado por Gomes&Gomes, Maria Gomes e José Gomes, os donos do supermercado. Vestidas como pinheirinhos de natal, as filhas bem nascidas disputavam a tapas a atenção do belo moço, de cujos olhos azuis se julgavam possuidoras.
Isso já ia de muitos meses, na farra sem fim de jantares no Iate Clube, conta protelada para quando “o meu contador chegar”. Dona Maricotinha se contorcia em cólicas, ora vejam, vocês não enxergam que o desconhecido é o dianho, o tibinga, o inominável? Pois alguém há aqui que lhe tenha visto os pés? Minha mãe já dizia, quer reconhecer o bicho, pois então lhe faça mostrar os pés.
Não adiantava nada falar, estavam todos possuídos pelo poder do desconhecido. A freguesia de doces começou a escassear, dona Maricotinha é contra o progresso. Ele prometeu-me emprego na capital, de motorista, outro de mordomo, outro ainda de médico chefe do hospital central. E seus doces encalhados foram parar no lixo, e cadê dinheiro pra sustentar aquela filharada sem emprego?
Por isso, e só por isso, decidiu dar um fim naquela comédia. Se eles não enxergavam, ela ia fazê-los ver bem de perto os sinais de que estavam adorando o coisa ruim. Chamou o padre e contou um plano. O vigário ficou louco de brabo, ameaçou interná-la, excomungá-la, onde se viu, um homem tão bom e generoso, havia escolhido a cidade para morar com seus queridos amigos. Dono de um iate daquele porte, de caixas e mais caixas de champanhe legítimo.
Resolveu valer-se dos filhos desempregados para a missão que Deus lhe destinou. Um baile havia sido marcado, onde seria coroada a Rainha do Festival da Primavera. Todas as moças sabiam que a escolhida por certo seria a eleita do ilustre morador da cidade. Para essa festa foram encomendadas as flores mais perfumosas, os peixes mais carnudos, as lagostas mais saborosas, o vinho mais caro. Gelo em abundância para o champanhe, roupas da melhor grife da capital. E os doces da sobremesa, quem vai fazer? Torciam o nariz, mas na cidade ninguém melhor que a velhinha fofoqueira para fazer doces, que sabiam aos manjares dos deuses.
Em comissão, as matronas foram à casa da esquina mais movimentada da cidade. Janelas fechadas, nenhuma bulha, e batem até que ela atende, como quem regateia acaba negociando um preço nem de longe sonhado, que lhe cobriria o prejuízo dos últimos meses. Mal sabiam que ela exultava no seu íntimo pela oportunidade de desmascarar o diacho do homem.
No cardápio, estavam incluídos os papos de anjo, os pasteizinhos de Belém, as queijadinhas, quindins, bem-casados e até os olhos de sogra, sua especialidade. Muita calda, sorvetes de cajá, de carambola, pudim de maracujá. E chegou o dia.
Dona Maricotinha na cozinha do Iate clube - espremida entre o cozinheiro francês trazido da capital pelo prefeito e os garçons vestidos de branco, passando com bandejas acima da cabeça e o nariz pro teto - rezava no seu terço de contas de vidro uma novena em intenção de Santa  Maria das Dores do Pilar, padroeira da cidade. Rezava e excomungava o cão, que lá no salão, se fazia acompanhar da cambada de puxa-sacos.
Chegou o grande momento da sobremesa. Ela mesma serviria, com os cinco filhos enfileirados e vestidos de pingüim, por ordem das autoridades presentes, arranjadoras da festa. Dona Maricotinha pendurou no pescoço um crucifixo que havia comprado para a ocasião, benzido pelo bispo e mandado pelo correio por um dos filhos da capital. Armou-se de água benta, colocada numa bacia de louça, onde espargiu gotas de água de colônia. Explicou para a mulher do prefeito, que estranhava aquela peça despropositada, que os convidados que comiam papos de anjo lambuzavam os dedos e precisavam lavar as mãos na água perfumada, o que era considerado muito chique pelas pessoas que freqüentavam a sociedade na capital.
 Apresentou primeiro ao convidado de honra sua bandeja composta das melhores iguarias que havia preparado. Sua fama já havia chegado ao ilustre senhor, que todo faceiro separou num prato os papos de anjo, os quindins, as compotas de jaca. Foi um descuido? A velhinha tropeça na saia comprida e derruba sobre o convidado a água benta. Foi um estouro de enxofre, o fedor terrível tomou conta do ambiente, uma nuvem amarela cobriu tudo e levou bem uma meia hora até que todos, tontos e de olhos vermelhos, pudessem achar a saída do salão, correndo pelas ruas e chorando sem querer chorar lágrimas de puro enxofre.
Até hoje ninguém sabe dar conta do ilustre senhor e da sua corte. Muita moça casadoira jura que tudo não passou de um plano terrível daquela bruxa malvada para afastar o bom partido, mas quem estava ali jura que viu o capeta estourando em uma nuvem de fumaça, sumindo pra nunca mais.
Dona Maricotinha voltou a vender seus doces, enquanto se incumbe de passar as novidades da cidade. É respeitada pelo padre, pelo prefeito e demais autoridades, que recorrem a ela quando querem fechar negócios com estrangeiros e gente da capital.

Senador Suplicy

Ao vê-lo ontem na Comissão de Justiça do Senado, com o seu jeito típico, tranquilo, relatando uma situação no Pinheirinho (de São José dos Campos), na sua fala para a  ministra Eliana Calmon do CNJ, fiquei emocionada e fico agora, enquanto escrevo. O senador Suplicy é, como o deputado Rosinha, uma daquelas pessoas de quem muito me orgulho, porque sou  petista e por saber que eles também são. Uma daquelas pessoas que nos enchem de fé no ser humano e na capacidade que temos de sermos just@s e bons(oas), de justezas e justiças e bondades legítimas, sem necessidade de afirmá-las com palavras, porque o fazem com ações. A eles junto, agora, a ministra Eliana. Minha lista é grande, o que significa que minha fé no ser humano também é.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Professores fazem paralização nacional para o cumprimento do piso salarial

Reproduzido do Portal Geledés
A partir desta quarta-feira (14/3) até sexta-feira (16/3), professores de escolas públicas municipais e estaduais prepararam diversas mobilizações para cobrar o cumprimento do piso nacional do magistério. Criada em 2008, a lei determina um valor mínimo que deve ser pago a professores com formação de nível médio e jornada de 40 horas semanais. Para 2012 esse valor foi definido em R$ 1.451, mas alguns estados e municípios pagam menos do que determina a regra.
A Confederação Nacional das Trabalhadores em Educação (CNTE) sugere que durante os três dias as atividades nas escolas sejam suspensas, mas cada sindicato está organizando a mobilização de acordo com a pauta de reivindicação local. Em algumas redes de ensino, a paralisação será parcial. Em outras, os professores promoverão passeatas, assembleias e atos públicos. No Distrito Federal, os professores já estão em greve em função das negociações de reajuste salarial com o governo.
Além de cobrar o cumprimento da Lei do Piso, a paralisação nacional também defende o aumento dos investimentos públicos em educação. A CNTE quer que o Plano Nacional de Educação (PNE), que tramita na Câmara dos Deputados, inclua em seu texto uma meta de investimento mínimo na área, equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB), a ser atingida em um prazo de dez anos.
 Fonte: Correio Braziliense

Pinheirinho: tropa de Alckmin impede convocação de responsáveis Raoni Scandiuzzi, Rede Brasil Atual




Publicado em 13/03/2012, 19:05

São Paulo – Não foi hoje (13) que a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa conseguiu aprovar os requerimentos para convocar as autoridades envolvidas na repressão aos moradores da comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos.

Os parlamentares da base aliada ao governador Geraldo Alckmin solicitaram vistas – um tempo maior para apreciação do tema – de todos os itens que previam a convocação daqueles que atuaram na desocupação, o que provocou reclamações da oposição.

Dos 27 itens na pauta da reunião, apenas o que solicitava uma audiência pública em defesa das crianças e adolescentes desalojadas no Pinheirinho não pôde receber o pedido de vistas e foi, portanto, aprovado.

Entre os outros itens, a maioria deles propunha a convocação de autoridades como o prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, além dos comandantes da operação, Manoel Messias, coronel da Polícia Militar, e de Fábio Cesnik, responsável pela Delegacia Seccional de São José.

O presidente do colegiado, deputado Adriano Diogo (PT), criticou o que considera uma interferência do Executivo no caso. “A nossa comissão está sob intervenção. Eu sugiro que haja uma reunião com a liderança do governo para ver o limite de admissibilidade dos nossos requerimentos, porque nossa comissão está desde o começo do ano paralisada”, afirmou o parlamentar.

O deputado Fernando Capez (PSDB) rebateu o petista e alegou que não há qualquer intenção política nos pedidos de vista. “Não necessariamente um pedido de vista é para obstruir. Ainda que haja algum tipo de obstrução política, há uma limitação”, disse.

O colega de partido Cauê Macris (PSDB) considerou normal os recorrentes pedidos de vistas. “Estamos usando das prerrogativas que temos previstas no regimento interno.

Todos os deputados têm direitos regimentais na Casa, ninguém aqui está obstruindo os trabalhos da comissão”, afirmou. Na saída da reunião, ele disse estar bastante chateado com a “maneira truculenta” com que Diogo conduz os debates.

Durante as discussões, Adriano Diogo ainda sugeriu que Macris “dissolva a comissão e mande todo mundo para a casa”, demonstrando seu desapontamento. Essa é a terceira reunião seguida em que há uma manobra da base governista a fim de postergar a convocação das autoridades.

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2012/03/manobra-da-base-de-alckmin-impede-convocacao-de-responsaveis-pelo-pinheirinho

domingo, 11 de março de 2012

Reproduzo a Nota de Repúdio do Instituto Wladimir Herzog


DOMINGO, 4 DE MARÇO DE 2012

Nota de Repúdio - Instituto Vladimir Herzog

O general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, em entrevista a Miriam
Leitão, das Organizações Globo, disse ontem (1/3/2012) que a Comissão da
Verdade, prevista em lei sancionada pela Presidência da República em
Novembro de 2010, é “maniqueísta” e parcial porque seu objetivo é “promover
o esclarecimento de torturas, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação
de cadáveres”. Acha ele que, para assegurar a imparcialidade da comissão,
ela também deveria investigar atos de violência cometidos por aqueles que
combatiam a ditadura.

Depois de sugerir que os desaparecimentos do deputado Rubens Paiva e de
Stuart Angel só sensibilizam até hoje a opinião pública porque eles
pertenciam às “classes favorecidas”, o general Rocha Paiva mostra duvidar de
que a presidente Dilma Rousseff tenha sido torturada na época da ditadura.
E, quando Miriam Leitão lembrou que “Vladimir Herzog foi se apresentar para
depor e morreu”, Rocha Paiva questiona: “E quem disse que ele foi morto
pelos agentes do Estado? Nisso há controvérsias. Ninguém pode afirmar.”

Como se alguém que se apresentara para depor não estivesse sob a guarda e a
responsabilidade do Estado e de seus agentes. Como se assegurar a
integridade física e a própria vida de um depoente, qualquer depoente, não
fosse obrigação oficial fundamental do Estado e de seus agentes, a quem ele
se apresentara. Como se a Justiça do Brasil já não houvesse reconhecido
oficialmente, há 33 anos, em decorrência de processo movido pela viúva
Clarice Herzog e seus filhos, que Vladimir Herzog foi preso, torturado e
assassinado nos porões da ditadura, por agentes do Estado.

Além de tudo isso, posteriormente, em julgamento proferido no âmbito da
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, criada pela Lei nº
9.140/96, o próprio Estado brasileiro ratificou o reconhecimento dessa
prisão ilegal, tortura e morte.

Ao indagar, mais adiante, “Quando é que não houve tortura no Brasil?”, o
general tenta justificar em sua entrevista os martírios que foram
perpetrados pela ditadura deixando entender que torturar é uma atividade
legitimada e consagrada pelos usos e costumes nacionais.

General, tortura nunca foi usos e costumes, nem no Brasil nem em lugar
algum. Sempre foi e é a violação do império da lei, que condena quem
tortura. Tanto que a nossa Constituição Federal é taxativa ao determinar que
“ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”
(art.5º, inciso III). E impor o respeito à lei – não vi olá-la – é o dever
precípuo mais básico dos agentes do Estado. Esses agentes estão cobertos
pelo manto institucional, portanto exercem um poder infinitamente maior que
qualquer outro cidadão.

É por isso, por ser um crime cometido pelo Estado – não por cidadãos comuns,
julgados pela Justiça comum – que as torturas e mortes perpetradas por
agentes do Estado e sob sua bandeira são o que precisa ser investigado e
exposto pela Comissão da Verdade. Não acobertado pelo Estado ou por qualquer
de suas instituições.

E a imparcialidade da Comissão estará em agir à luz da Justiça e da lei ao
investigar e expor os crimes cometidos pelo Estado e seus agentes – não ao
talante de quem detém o poder.

Tudo isso torna claro que a manifestação do general Luiz Eduardo Rocha Paiva
atenta contra o Estado Democrático de Direito, também preconizado na
Constituição Federal do Brasil, que tem entre seus fundamentos “a dignidade
da pessoa humana”, além da República Federativa do Brasil reger-se nas suas
relações internacionais pelos princípios, entre outros, da “prevalência dos
direitos humanos” (Constituição Federal, arts. 1º, III, e 4º, II).



INSTITUTO VLADIMIR HERZOG

Madame Bovary

  A Velhice II      Quero falar das dores da velhice. Não aquela dor que vemos quando temos coragem de encarar o espelho e aquela mulher (ho...